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    PERSEGUIÇÃO e RESISTÊNCIA

    Como é importante, publico o texto de Idelber (O Biscoito Fino e a Massa) sobre perseguição política a blogueiro. Tais situações repetem-se na atual conjuntura. Virou moda. E é preocupante. Percebe-se no horizonte uma tentativa de um certo establishment político em amordaçar a blogosfera política e independente.

    Outro exemplo, daqui da terrinha: o clã Zé Neves (que todos os tricolores lembram com muito "carinho", pois elevou o Santinha à "glória esportiva") ameaçou o blog político Acerto de Contas (aqui e aqui).

    Momento de perigo. Resistência e resistência. O que está em perigo é a dignidade de resistir.

    (em tempo: Idelber confirmou, aos participantes do Clube de Leituras do Borges, o tema do papo de quarta-feira. É o conto "Emma Zunz" - disponível na internet em português e no original . Literatos, participem!)

    Lá vai:

    Mais um blogueiro ameaçado por político

    sakamoto.jpg Leonardo Sakamoto, jornalista, doutor em ciência política pela USP, coordenador da ONG Repórter Brasil e um dos maiores conhecedores da realidade do trabalho escravo no Brasil (e há tempos recomendado cá neste blogroll), foi ameaçado de processo na tribuna do Senado Federal no dia 25 de setembro. A senadora Kátia Abreu (PFL DEM-TO), conhecida líder da bancada “ruralista”, reagiu a uma simples informação – a de que ela votou de acordo com os interesses de latifundiários flagrados no uso de trabalho escravo – com uma ameaça de processo sobre o jornalista. O discurso da senadora, como costuma acontecer nesses casos, foi um arrazoado de incorreções:

    Disse a digníssima na Tribuna do Senado: Sr. Leonardo Sakamoto, dono do site Repórter Brasil, financiado por recursos públicos, como consta no Contas Abertas, o senhor recebe dinheiro público para financiar o seu site e me acusa dizendo: A Senadora é uma das maiores opositoras do combate ao trabalho escravo contemporâneo. Quando Deputada Federal, defendeu os produtores rurais flagrados cometendo esse tipo de crime e atuou contra. Quero dizer-lhe, de público, que vou processá-lo por calúnia e difamação. O senhor é um irresponsável que mama nas tetas do Governo, que financia esse site irresponsável, o qual não tem crédito.

    Na sua contudente resposta, Sakamoto refuta ponto por ponto:

    1) Uma organização não-governamental, com diretoria e estatuto devidamente registrados, não tem dono e sim associados que elegem uma diretoria, da qual faço parte. Não sou proprietário de nada na Repórter Brasil.

    2) A senadora cortou a frase que escrevi. A sua íntegra é a seguinte: "A senadora é uma das maiores opositoras do combate ao trabalho escravo contemporâneo. Quando deputada federal, defendeu os produtores rurais flagrados cometendo este tipo de crime e atuou contra a aprovação de leis que contribuiriam com a erradicação dessa prática". A matéria na íntegra pode ser lida clicando aqui.

    Um exemplo: No dia 11 de agosto de 2004, 326 deputados federais aprovaram, em primeira votação, a proposta de emenda constitucional que prevê o confisco de terras em que trabalho escravo for encontrado, considerado uma das bandeiras da Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. A então deputada Kátia Abreu e mais nove parlamentares posicionaram-se contra. Depois disso, a PEC 438/2001 não foi colocada em votação em segundo turno devido à pressão realizada pela bancada ruralista da Câmara dos Deputados, o que tem beneficiado os fazendeiros que utilizam mão-de-obra escrava. De acordo com parlamentares e entidades que atuam no combate ao trabalho escravo, a senadora Kátia Abreu foi uma das mais atuantes para que isso acontecesse.

    3) Ao contrário do que informou a senadora Kátia Abreu, eu não mamo "nas tetas do governo". Ou seja, eu não "colho benefícios financeiros ilícitos de empresa ou administração pública" (conforme o dicionário Houaiss). Essa sim é uma declaração passível de um processo por calúnia e difamação. Meu cargo na direção da Repórter Brasil não pode ser, nem é, remunerado, como manda o estatuto da entidade.

    Como se lembram os que acompanharam este blog na época da campanha eleitoral, processos judiciais de senadores contra blogueiros já têm história e triste memória no Brasil. O Biscoito empresta sua solidariedade irrestrita a Sakamoto, deixa a sugestão para que os eleitores do Tocantins a escrevam à sua senadora com pedidos de esclarecimentos e convida os amigos blogueiros a repercutirem a notícia.

    Minha aposta é que depois da resposta de Sakamoto e do desagravo do Senador Nery ao jornalista, a Senadora Abreu não volte mais ao assunto. Mas permaneçamos atentos ao desenrolar dos eventos. Em todo caso, minha convicção é que isso só vai deixar de acontecer quando os parlamentares e membros do Executivo perceberem que a força da internet já é tal que os custos políticos de ficar ameaçando blogueiro não serão altos demais para valer a pena. Com a palavra, a turma que é criativa com banners e que esteja disposta a compor uma caricatura da senadora pefelê, nos moldes do grande sucesso que foi o Xô, Sarney.

    (notícia via Blue Bus via Querido Leitor)



    Escrito por Perrusi Filho às 09h26
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    LI "LOTERIA EM BABILÔNIA" E FUI PARAR EM OUTRO CANTO

    Extemporâneo: incrível, nunca pensei que fosse dizer isso na minha vida: as meninas da seleção recuperaram minha fé no futebol! E que gol de gênio de Marta!

    O famoso blog de Idelber, o "O Biscoito Fino e a Massa", abriu para a blogosfera um Clube de Leitura. A iniciativa foi muito boa e gerou uma série de discussões bem variadas, entre vários blogueiros, cada um apresentando sua interpretação do texto recomendado -- vale a pena ler as interpretações, algumas são bem interessantes (aqui, aqui, aqui e aqui). E, justamente, Idelber escolheu o texto a dedo, dado a capacidade desse conto de gerar associações: "Loteria em Babilônia" de Jorge Luis Borges. Para quem quiser ler o conto, aí vão a tradução em português e a versão original em espanhol.

    Não participei da discussão. Li o conto, mas não fiz a crítica. Mesmo se tivesse tempo, teria uma imensa dificuldade, já que não tenho o costume de analisar produções literárias. Não é fácil. Quando leio ficção, tenho a tendência a fazer associações um tanto obscuras, muitas delas completamente fora do contexto. E a leitura do conto levou-me longe, bem longe, inclusive para fora da fronteira temática da discussão.

    Bem, o conto fala de uma sociedade tomada completamente pelo jogo lotérico e dominada pela companhia responsável pela loteria. Tudo vira loteria e a companhia passa a controlar o arbitrário e a contingência da vida cotidiana. Vira uma sorte de Estado Ideal Totalitário ou de Deus -- pelo menos, muitas interpretações foram, com certa razão, nessa direção (o Hermenauta, por exemplo).

    Embrenhei-me num caminho diferente e fiquei matutando sobre a loteria. Na verdade, fugi do conto. Fiz algumas associações e me lembrei de algumas análises de meu filósofo favorito, Daniel Dennett, sobre adivinhações. De uma certa forma, a loteria decide nosso destino; não precisamos tomar mais algumas decisões na vida, pois a loteria já "decidiu" por nós. Igualmente, a adivinhação serve para resolver diversos problemas, "tomando" uma decisão que seria, normalmente, de nossa estrita responsabilidade.

    Dennett diz que é difícil tomar decisões na vida, e que uma das formas mais fáceis de decidir é apelar para a adivinhação. Pego o emprego ou não, peço o divórcio ou não, entrego meu coração ou não, faço isso ou faço aquilo. Sim, a decisão não é fácil e, até mesmo, envolve um "cálculo" mais ou menos complexo, com muitas variáveis, inclusive diversas do tipo não-racional. Qualquer coisa que alivie o fardo decisório é interessante. Há vários exemplares no mercado do aleatório: cara ou coroa, por exemplo.

    Ah, esse procedimento gera uma certa paz espiritual, pois deslocamos, com isso, a nossa responsabilidade para algo exterior, independente de nossa vontade. Tentei implementá-lo no departamento de ciências sociais da UFPB, alegando que a Morte do Sujeito livrava-nos das tomadas de decisão; afinal, sem sujeito, não há escolha, logo, não há propriamente responsabilidade. Fiz ver aos meus pares que poderíamos deslocar nossa vontade para outras estruturas de escolha, principalmente as aleatórias, e que seríamos apenas vetores dessa estrutura, o que corroboraria algumas teorias estruturalistas e pós-estruturalistas, mas fui voto vencido, infelizmente.

    No fundo, até concordo com a decisão dos meus colegas, pois "cara ou coroa" é muito simples e rudimentar. Para decisões difíceis, tipo "façamos mais uma greve e desmoralizemos de vez a universidade pública", esse artifício é insuficiente. Como diz Dennett, a escolha precisa de um bom motivo. E, depois do resultado do "cara ou coroa", tem-se que aceitar a decisão -- ou não?! Eis o problema. Por isso, precisamos de algo mais forte. Se possível, algum procedimento com grandes cerimoniais e que envolva entidades além de nossa compreensão. Se temos a necessidade de deslocarmos a responsabilidade das decisões para algum processo externo à nossa vontade, que seja um que tenha uma certa "intencionalidade", isto é, que assuma, justamente, alguma responsabilidade. A cerimônia é importante, pois solidifica o deslocamento da responsabilidade e "encarna" o procedimento randômico, valorizando-o simbolicamente. Com tudo isso, caso a decisão não dê certo, pelo menos temos um culpado ao alcance de nossas projeções. Outra vantagem: não precisamos compreender como funciona o processo. Aliás, o desconhecimento é vital e ajuda a fortalecer a legitimidade do deslocamento.

    Cá entre nós, isso é muito reconfortante.

    (como ateu, tenho uma incapacidade muito grande de deslocar minhas responsabilidades. Por isso, vivo culpado. O jeito é sempre acusar o capitalismo e a burguesia das decisões equivocadas que pululam nesse mundo velho e enfadado)

    Pensando nisso, sugeri aos meus colegas (claro, não desisti de convencê-los da minha empreitada, pois a responsabilidade envelhece-me a cada dia) uma série de exteriorizações de responsabilidades. Uma antropóloga poderia jogar flechas ao léu (belomancia); um cientista político, bastões (rabdomancia); uma amiga minha, ossos ou cartas (sortilégios); um sociólogo poderia interpretar folhas de chá (tasseografia); eu mesmo poderia examinar algum fígado de animal (hepatoscopia), exceto o de pequenos cachorros (por causa de Ideafix), ou alguma outra víscera (haruspicia); tenho um amigo psicólogo e behaviorista que poderia facilmente interpretar o comportamento dos roedores (miomancia) e outro, dessa vez filósofo, o comportamento das nuvens (nefomancia)...

    Bem... er... mais uma vez fui voto vencido.

    Minha derrota, talvez, tenha uma explicação -- um tanto paradoxal, convenhamos: os cientistas sociais não gostam da sorte e do aleatório. Não suspeitam que alguns eventos podem ser aleatórios. Acham, com uma certa razão, que tudo tem significado -- boa parte da atração da psicanálise, por exemplo, é baseada nessa premissa. Antigamente, na Babilônia, tudo tinha sentido, porque o significado existia e vinha, necessariamente, do além-mundo; meus colegas acham que, agora, tudo tem sentido nesse mundo, porque tudo ao redor pulula de significado. O pensamento determinístico só mudou de mundo, mas não de procedimento. 

    Além disso, confundem acaso com contingência. Posso até admitir que a idéia de acaso, num sentido absoluto, é uma noção metafísica. Acho apenas que relativizar o acaso já é postular a contingência, que não é acaso. A contingência é o encontro casual de séries causais. E pensar que tudo tem sentido impede o raciocínio probabilístico e a apreensão dos processos contingentes.

    Acho que meus colegas não compreendem que "a opção deliberada por uma opção sem sentido, apenas para se fazer uma escolha qualquer para poder seguir com a vida, provavelmente é uma sofisticação muito posterior, embora seja o motivo fundamental para explicar por que ela é mesmo útil às pessoas" (Dennett). Não, a gente tem que discutir, discutir, achar motivos, razões e sentidos em tudo e em todos. Ainda prefiro o "cara e coroa".

    Enfim, li o conto de Borges, não entendi nada e findei brigando com meu departamento.

    Depois da análise sociológica, o que mais detesto é a análise literária.



    Escrito por Perrusi Filho às 16h11
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    IRÃ GAY


    Proibida essa bandeira no Irã

    Artigo interessante de Pedro Dória sobre a situação dos homossexuais no Irã. Informação curiosa: o governo Bush é homofóbico. Parece que Ahmadinejad e Bush têm medo de gays. É surpreendente?!

    Lá vai:

    Irã gay

    Falando aos alunos da Universidade Columbia, em Nova York, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad declarou que, em seu país, não há gays. ‘Não imagino quem possa ter-lhes dito isto’, foi dizendo o bom presidente, ‘não temos deste fenômeno’.

    Que há gays, no Irã, evidentemente os há. Em julho de 2005, dois adolescentes foram enforcados por terem transado – um tinha menos de 18 anos. ‘Todo jovem o faz’, um deles declarou. ‘Não sabíamos que havia pena de morte.’ No interior do país, as mulheres usam burqas. O único acesso que um adolescente tem ao sexo oposto são mãe e irmãs. Num cenário assim, não é de todo improvável que a exploração homossexual seja de fato comum na juventude. Na Arábia Saudita é considerado normal para um homem mais velho pegar um rapaz imberbe como amante.

    Brian Whitaker, ex-editor de Oriente Médio do Guardian britânico e autor de Unspeakable love: gay and lesbian life in the Middle East – Amor não declarado, a vida de gays e lésbicas no Oriente Médio – escreve sobre o assunto, hoje. Ele lembra que a poesia persa já há muitos séculos se dedica também a temas homossexuais e que, como em todo país da região, pelo menos uma cidade tem fama de gay – o equivalente local a Campinas ou Pelotas. No caso do Irã, é Qazvin, onde há 600 anos viveu o poeta Ubayd Zakani, espécie de Bocage persa, conhecido pelas descrições satíricas e homoeróticas da sociedade.

    A forca não é a única pena possível. A chibata é uma alternativa quando não há provas de que houve relação sexual. Há pelo menos uma entidade que luta pelos direitos gays no país – trata-se da Iranian Queer Organization, IRQO. Mas, evidentemente, quem vive no Irã tem medo de se organizar:

    Os gays iranianos se dividem em dois grupos. Uns acreditam que organização e resistência ativa da comunidade GLBT provocaria uma forte reação governamental, que poderia atiçar uma contra-reação internacional contra o país. Ninguém quer mais uma desculpa para que venha uma reação militar internacional contra o regime iraniano por conta de violações de direitos humanos. Outros querem lutar por seus direitos civis plenos. […]

    Nos últimos meses, ativistas de direitos femininos foram presas violentamente. A IRQO encoraja a comunidade gay e quem a apóia a iniciar petições que levem a apoio popular.

    Os gays iranianos que temem se organizar porque isto provocaria uma reação do governo que poderia levar ao ataque do país é provavelmente infundada. A administração de Ahmadinejad e a de George W. Bush têm lá seus pontos comuns. Por exemplo, o de serem co-signatários de um pedido que nega à ONU o direito de financiar organizações que lutem pelos direitos de gays e lésbicas onde são oprimidos.

    Exilado momentaneamente na Turquia, Amir, um jovem gay de 22 anos que busca asilo político fora do Oriente Médio, conta sua história de prisão após uma festa:

    Os policiais nos vendaram os olhos, jogaram-nos numa van e nos levaram para o Ministério do Interior. Éramos todos conhecidos por nossos nomes. Fui o terceiro a ser interrogado. Os policiais tinham vídeos feitos da festa, em um dos quais eu lia um poema. Eles mandaram que eu o recitasse novamente. Que poema, perguntei. Aí me bateram no rosto, na cabeça. Tentei negar que era gay, então eles me tiraram os sapatos e começaram a bater com cabos de metal nas solas dos pés, provocando uma dor lancinante. Eu ainda estava vendado. Como encontraram consolos na casa da festa, me bateram com eles, enfiaram-nos na minha boca. Quando contei que meu pai era um mártir da Guerra Irã-Iraque, eles bateram ainda mais duro. Tiraram de mim o cartão que me garantia benefícios para filhos de mártires e disseram que informariam à universidade onde estudo de minhas atividades.

    O computador do rapaz foi confiscado e as imagens de homens nus que ele tinha foram apresentadas a sua mãe. Durante o julgamento, ameaçaram-no de leva-lo a um médico. É o maior terror para um rapaz gay. Se o médico der um atestado garantindo que alguém já foi penetrado, vem a condenação à morte. Liberado após tortura e multa, Amir conseguiu fugir.

    Os alunos de Colúmbia riram quando Ahmadinejad explicou ‘que este fenômeno’ não existia no Irã. Evidentemente, a declaração é tão absurda que faz dele um líder caricaturalmente fanático. Mas, para os homossexuais iranianos, não há graça nenhuma.



    Escrito por Perrusi Filho às 17h44
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    AINDA SE FAZ OMELETE QUEBRANDO OVOS


    Alon?!

    Stalinista...

    Pra que livros, conhecimentos, fatos, pra quê?! Incrível como uma determinada posição política, com "um ponto de vista democrático, nacional e de esquerda", pode ser tão hipócrita. A nova defesa de Stalin realizada pelo Blog do Alon (aqui e aqui) foi a gota d'água. Revelou de vez sua hipocrisia.

    Alon critica uma citação dum livro didático de história, escrito por Mario Schmidt, e aproveita para fazer loas a Stalin. Tal livro, inclusive, causou o maior escarcéu na blogosfera (aqui, aqui, aqui e aqui). A citação é a seguinte:

    "A URSS era uma ditadura. O Partido Comunista tomava todas as decisões importantes. As eleições eram apenas uma encenação (...). Quem criticasse o governo ia para a prisão. (...) Em vez da eficácia econômica havia mesmo era uma administração confusa e lenta. (...) Milhares e milhares de indivíduos foram enviados a campos de trabalho forçado na Sibéria, os terríveis Gulags. Muita gente foi torturada até a morte pelos guardas stalinistas...'' (pp. 63-65).

    Tal afirmação -- aliás, absolutamente banal do ponto de vista historiográfico -- é vista como anticomunismo. É uma estratégia, na verdade. Sim, isso mesmo, foi a forma utilizada pelo autor para agradar os reaças, isto é,  "o autor resolveu recorrer ao anticomunismo para ser simpático à direita", diz Alon. Afinal,  "eu não levo a sério, ideológica ou intelectualmente, pessoas supostamente de esquerda que pedem salvo-conduto à direita para contrabandear opiniões também supostamente 'progressistas". Então, tá.

    No artigo, Alon não contesta que a URSS foi uma ditadura. Simplesmente, omite olimpicamente esse fato -- afinal qual é sua importância? O que importa é escancarar o extraordinário erro da citação, isto é, a afirmação de que, na URSS stalinista, não houve "eficácia econômica" ou, ainda, ocorreu uma  "administração confusa e lenta". O certo é afirmar que a indústria soviética, durante o stalinismo, cresceu  10% ao ano. Todo o argumento, até o fim do artigo, é para defender essa singela verdade. O fato de o crescimento stalinista ter-se baseado na superexploração do trabalho (mais-valia absoluta -- para usar um jargão -- é eufemismo) e no trabalho forçado e escravo -- o preço foi óbvio: matança e assassinato de milhões de pessoas --  é visto com desdém. No fundo, a denúncia desse fato é desvio trotskista -- cruzes, mais uma picareta de gelo na cabeça do pobre Trotski!

    Ora, "certos ramos do esquerdismo aliam-se à direita para difundir que nos anos 30 a União Soviética tinha diante de si todas as opções e que escolheu a mais "sangrenta" porque os bolcheviques e Stálin eram 'maus".  Aqui, Alon chega ao cúmulo da hipocrisia ao colocar aspas na palavra-chave para entender o desenvolvimento soviético: "sangrenta". Por que as aspas? Ele não diz e prefere continuar com  a cantilena produtivista. Aliás, insinua sim o motivo: sem aspas, a utilização do termo "sangrenta" seria uma acusação humanista ao comunismo. E o humanismo... Ora, sabemos o que o stalinismo pensou e pensa do humanismo: uma ingenuidade que nega a administração das coisas, pelas coisas e para as coisas. Não importa muito a morte de milhões de pessoas. É o preço da História e do fordismo soviético.

    Alon sabe, mas é hipócrita demais para assumir as consequências de sua posição: quem faz o jogo da direita não é  ninguém, nem mesmo Trostki, e sim a sua defesa do stalinismo. E de três formas: primeiro, oferece de bandeja à direita a acusação de que toda esquerda é totalitária e antidemocrática -- Tio Rei e Olavo de Carvalho agradecem de coração o presente retórico; segundo, a crítica democrática do modelo liberal de democracia é abandonado e fica sem dono, e a defesa da democracia, agora entendida como democracia liberal e a única possível, vira monopólio da direita; terceiro, deixa uma certa direita à vontade para defender o "milagre econômico" da ditadura militar. Ora, se posso sustentar o crescimentos industrial soviético, relevando os milhões de mortos, posso muito bem defender, mutatis mutandis,  o desenvolvimento econômico durante a ditadura militar, relevando a tortura e a falta de liberdade. Em nome do produtivismo e do crescimento econômico, despreza-se qualquer discussão política acerca da democracia e da liberdade.

    (com a devida alteração de pormenores, não se defende Cuba sempre nos lembrando de seu excelente sistema de saúde?)

    Compreendo melhor, agora, as posições políticas de Alon. É uma posição baseada na realpolitik, travestida de política realista; por isso, a impressão de bom senso. No fundo, tudo é correlação de forças e o maquiavelismo faz parte natural da política. Não surpreende sua admiração por José Dirceu e seu pedido de salvação do comissário petista pelo Estado de Direito (aqui): não há provas contra Dirceu, por isso deve ser anistiado. Ele poderia ser mais coerente e defender o seguinte raciocínio: mostrar a relação entre o crescimento econômico brasileiro a 4,5% ao ano e  -- logo, por força do argumento -- a inocência de  Dirceu. Afinal, como podemos culpar os governistas de corrupção, etc e tal, se desenvolvemos, atualmente, as forças produtivas brasileiras? Não há corrupção, nem crime, diante desse tipo de História.

    Enfim, Alon aproveita a deixa (bem PC do B isso) e acusa o PT de anticomunista -- "no futuro, as diatribes anticomunistas do PT serão esquecidas", diz ele. Mas isso é um dos poucos legados do PT que não pode ser esquecido: uma crítica democrática e de esquerda do totalitarismo -- única forma de construir uma esquerda pós-totalitária. Ora, isso é impossível defendendo Stalin, Mao, Deng Xiaoping, Fidel Castro e quejandos. Isso é defender dominação pura e simples, e não luta hegemônica; pensar como Lênin, pensando que é um... democrata; instrumentalizar a democracia e não pensá-la como valor.

    Considero a defesa de Stalin comparável ao revisionismo histórico que nega o Holocausto. É um sombrio erro moral e um monumental erro historiográfico. É a defesa política velada do totalitarismo.

    É transformar o mote "um ponto de vista democrático, nacional e de esquerda" em "um ponto de vista stalinista e nacional para acabar com a esquerda".



    Escrito por Perrusi Filho às 20h43
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    MOMENTO POMPOM "COMEÇANDO A SEGUNDA-FEIRA"

    Eu notei mesmo, pela primeira vez, Uma Thurman no filme Pulp Fiction. Paixão imediata. Ela como Mia Wallace , com aquele jeitinho manhoso, sonso e fatal, deixou-me com os pneus arriados. E sua dança com Vincent, vulgo John Travolta, ficou na antologia do cinema.

    Personalidade forte. Tem jeito de dominadora. Dá medo. Mas submeto-me numa boa. Algumas submissões dão prazer. Nada contra.

    Lá vai: 

     

     

    Uma Thurman as Mia Wallace in Miramax's Pulp Fiction 
     

     

    Uma Thurman in Universal Pictures' Prime 

    Uma Thurman as The Bride in Miramax's Kill Bill Vol. 2 
     
    Uma Thurman at the Hollywood premiere of MGM's Be Cool 
     
    Uma Thurman at the LA premiere of Miramax's Kill Bill Vol. 2 
     
    Uma Thurman Kill Bill Vol. 2 Cannes Film Festival 
     
    Uma Thurman at the New York premiere of Miramax's Kill Bill: Volume 1 
     


    Escrito por Perrusi Filho às 19h47
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    ARTIGO DE WANDERLEY GUILHERME DOS SANTOS

    Texto do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. Polêmico, por isso vale a pena lê-lo. As metáforas e analogias são fáceis e óbvias, mas guardam seu efeito retórico. Há uma astúcia interessante no argumento: cria-se um novo ser e adversário, o tal do "brasilianismo", e, através da crítica dessa nova entidade, desmonta-se um discurso que, provavelmente, não existe (ou existe de outra forma bem mais complexa), exceto na cabeça do cientista político. Tudo bem, tal estratégia retórica faz parte do desejo de persuação do autor, e isso é muito comum nas discussões acadêmicas: inventa-se um adversário fictício para melhor desmontar o verdadeiro objetivo da crítica. O problema é que a análise fica um tanto vaga e generalizada, além de caricaturar o alvo da crítca. Enfim, não é tão eficaz. E o artigo tem algo que me incomoda -- confesso que é um tique pessoal: toda vez que um cientista social utiliza analogias e metáfores médicas e biológicas fico profundamente entediado, algumas vezes até assustado.

    O artigo foi publicado originalmente no jornal Valor Econômico.

    Lá vai:

    Democracia e o vírus do brasilianismo

    Dói na alma, mas nem sempre a educação é um bem sem contra-indicação. As pesquisas reiteram a cada rodada que as classes subalternas têm respondido com apoio e votos às políticas sociais do governo.

    Onde o governo está mais presente é ali onde, proporcionalmente, tem crescido seu eleitorado. Desmentindo o argumento de que o governo falha em suas promessas de campanha. As oposições e os descontentes da esquerda também o acusam de trair sua base popular de origem.

    Alternativamente, conservadores e progressistas descobrem motivo de congraçamento entre si na crítica ao suposto paternalismo governamental, que seria a razão da aquiescência das massas antes que da promoção de sua consciência cívica e autonomia política. Como é natural, não se há de responder com imperfeições terrenas às exigências do mundo platônico das idéias.

    Equivalente ideal de pureza orienta os murmúrios de insatisfação quanto ao funcionamento das instituições legislativas, maculadas que estariam por operadores corruptos, por vícios simultâneos de origem e decrepitude, além de repetidas manifestações do insultuoso hábito de legislar em causa própria.

    Do Executivo, o defeito mínimo que se lhe atribui é o da incompetência gerencial. Mencionam-se ademais, aqui e ali, alheamento, preguiça e incapacidade de decisão. Pela esquerda histórica, do mesmo modo insatisfeita, se assegura que o Executivo se encontra manietado por escandalosos acordos com o conservadorismo. Ou seja, o Executivo, a bem dizer, nada faz e, quando faz, faz mal ou em má companhia, descaracterizando o bem-feito.

    E assim marcharia o país entre corrupção e inércia, de cambulhada com alguns outros países, poucos, igualmente cretinos, à margem do benéfico período de progresso material aproveitado pelo resto do mundo. Nem as migalhas, nós estaríamos saboreando desta vez.

    Trata-se, é claro, de um diagnóstico brasilianista. Tão grave quanto o bócio e a elefantíase, o brasilianismo é a enfermidade típica do atraso, mas com patológica distribuição sociologicamente distinta.

    Ela contamina preferencialmente pessoas de elevada classe de renda, habitantes de áreas urbanas, sobretudo no Sudeste do país, com diplomas universitários concentrados nas áreas de ciências sociais, economia e comunicação.

    Em geral, o brasilianismo não provoca estados febris nem suores inoportunos, apresentando como principais sintomas uma enorme confusão de raciocínio, miopia conceitual e daltonismo partidário, estimulando surtos de verborragia, descontrole de adjetivos e relaxamento das vias gramaticais. Eventualmente, uma diarréia substantiva.

    Dotados de imbatível lógica esquizofrênica, os contaminados costumam passar por professores, cheios de comendas, donos de escritórios de consultoria, fartos de encomendas, colunistas bem remunerados, intrigantes de notinhas jornalísticas e assessores de grupos de interesse.

    Honestíssimos, em sua maioria, acreditam no que dizem, com grande pompa e muita circunstância. Causa dissabor vê-los. Ao contrário dos portadores de bócio e de elefantíase, cônscios estes da enfermidade que os atormenta, os brasilianistas desfilam orgulhosamente a própria miséria como portariam um estandarte de cruzados. Em certo sentido, são mesmo monocromáticos. Felizmente, o brasilianismo não é sexualmente transmissível. Segundo alguns clínicos, porque não é sexualmente ativo. Polêmicas médicas.

    Embora bem-educados, os brasilianistas têm horror à leitura, particularmente de matérias sobre o Brasil, à exceção, obviamente, dos artigos que escrevem uns para os outros. Ignoram as estatísticas, têm vaga noção do que significa o coeficiente de Gini e não fazem a menor idéia do que foi a história da América do Sul nem do percurso secular do grande mito que são os Estados Unidos. Da Europa, conhecem os vinhos, os queijos e o carnaval de Veneza, em pacote turístico de sete dias. Constituem a mais acachapante evidência do fracasso da universidade brasileira.

    Jamais um brasilianista aceitará a tese de que os pobres votam por uma razão idêntica à sua, isto é, por interesse. E, conseqüentemente, também rejeitarão a hipótese de que os carentes sejam tão racionais quanto eles, os poucos abundantes. Negarão que pertençam ao mesmo gênero de distribuição de privilégios os subsídios à exportação, a remuneração dos títulos da dívida pública e os empréstimos pré-consignados. São favoráveis ao controle da natalidade da população de salário mínimo e à pena de morte, em certos casos, que é uma forma substitutiva, ou complementar, de controle da mortalidade. Consideram-se liberais de boa cepa, pois têm entre seus melhores amigos, segundo testemunho voluntário, um negro, um judeu e um gay. A discriminação dos melhores amigos é a confissão inconsciente da lista de preconceitos que cultuam.

    Não obstante os brasilianistas, ou melhor, inclusive com parcela do trabalho deles, vai se livrando das algemas do arcaísmo um país em que os conservadores parecem ter, finalmente, abandonado a estratégia de rondar os quartéis sempre que contrariados pela política. A integração material da sociedade avança pela via do mercado, a despeito dos revolucionários e dos adoradores dos monopólios, e no qual a Constituição de 1988 conseguiu evitar a institucionalização de práticas discriminatórias.

    O custo de combater preconceitos e discriminações é baixo, no Brasil, porque não são protegidos por lei. Aspecto crucial, cuja relevância é perfeitamente reconhecida pelos negros da África do Sul e dos Estados Unidos e pelos antigos judeus imigrantes argentinos, por exemplo.

    A sociedade precisa dos brasilianistas na exata medida em que as deficiências materiais são ainda tamanhas e a tentação para a autocomplacência é enorme. Mas estão sobre-representados na produção e controle da informação pública, comprometendo com sua vesguice melhor avaliação do que vai pelo mundo e pelo Brasil.

    O formigamento social é extenso, a vida comunitária se enriquece municípios afora, mas de nada disso a maioria da população toma conhecimento, monopolizado que está o mecanismo de produzir idéias e imagens. Há evidente descompasso entre o processo de democratização em curso na vida política e social e o processo de concentração oligopolista no sistema de captação e difusão das novidades.

    A unanimidade brasilianista que absorveu as fontes de informação prejudica a democracia, constitui ameaça aos direitos do cidadão de estar servido de fontes alternativas de opinião, nega, na prática, o pluralismo ideológico, enquanto busca a massificação bovina de leitores e telespectadores. Nunca o Brasil moderno, período ditatorial à parte, enfrentou inimigo tão poderoso: aquele que, tal como um partido subversivo, usufrui da liberdade para asfixiá-la.

    O Brasil real é complexo, pleno de deficiências e de linhas de força, não está representado na rede para-ideológica de informação, tomada de assalto pelo brasilianismo.

    O brasilianismo é a doença infantil da ditadura da opinião. De onde se segue a divergência entre o que ocorre no país e o que pensam sobre ele aqueles que se imaginam educados. Para estes, a educação não vale coisa alguma.



    Escrito por Perrusi Filho às 18h29
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    CONVERSA COM ANTANAS MOCKUS

    Muito interessante o texto de Maurício Santoro, do blog Todos os Fogos o Fogo (belo nome!). Cientista político, é especialista em América Latina. Seu blog tem várias discussões importantes sobre nossa parte do mundo.

    Abaixo, publico um texto que narra o resultado de uma conversa com Antanas Mockus, descrevendo as experiências produzidas na Colômbia, em particular em Bogotá, no combate à violência. Em suma, problema atualíssimo. É uma experiência alternativa às posições dominantes baseadas na ultrarepressão. E, também, não se baseia numa prevenção "técnica", que prescinde de qualquer visão cultural (antropológica) da violência, como muitos defendem na terrinha

    Lá vai:

     



    Uma das contradições mais fortes que experimento na América do Sul é o contraste entre a violência que atinge a Colômbia há 60 anos e o caráter absolutamente bem-humorado e afável dos colombianos que conheço, para não mencionar a alta qualificação técnica de seus acadêmicos e a beleza estonteante das mulheres. Na última sexta-feira, recebemos no instituto a visita do ex-prefeito de Bogotá, Antanas Mockus, um dos principais formuladores de políticas públicas de segurança naquele país. Foi uma excelente conversa que reforçou a alta consideração que tenho dos colombianos.

    O nome de Mockus soa estranho aos ouvidos latinos, porque ele é filho de imigrantes lituanos. Formou-se em matemática e filosofia e antes de se dedicar à política foi reitor da Universidade Nacional e se destacou em seus dois mandatos em Bogotá (1995-1997 e 2001-2003) como um inovador excêntrico e controverso, que mudou a maneira de se pensar segurança na Colômbia. O cerne da polêmica foram as ações de seu programa de “
    cultura cidadã”. A idéia principal é que a violência tem um forte componente cultural e que para combatê-la é necessário não somente melhorar a polícia, mas atuar nas relações cotidianas das pessoas.

    Mockus fala na necessidade de romper o “divórcio entre lei, moral e cultura”, isto é, a percepção de determinadas transgressões são aceitáveis para a sociedade. Por conta disso, seu governo investiu na criação de instituições de resoluções pacíficas dos conflitos. Por exemplo, realizando “campanhas de vacinação contra a violência”, na qual as pessoas expressavam publicamente seus ódios mais intensos. Ou distribuindo cartões com polegares para cima e para baixo, que eram entregues aos motoristas e usados para manifestar descontentamento em incidentes de trânsito. Outra medida foi contratar mímicos para ridicularizar pessoas que violavam as leis de tráfego.



    O prefeito também tomou medidas bastante controversas, como a chamada Lei Cenoura, um toque de recolher em bares e restaurantes. Decretou noites exclusivas para as mulheres da cidade, deixando os homens em casa. Casou-se num circo e fantasiou-se de super-herói para divulgar suas idéias. É incrivelmente engraçado e com uma retórica muito habilidosa para defender seus projetos.

    Os êxitos de Mockus foram notáveis: reduziu a taxa de homicídios em Bogotá de 82 para 35 por cem mil habitantes e em grande medida foi o responsável pela cidade ser considerada hoje como “uma ilha de legitimidade dentro da Colômbia”, na expressão de um amigo daquele país. Concorreu à presidência em 2006, mas teve votação pífia, ficando em quarto lugar numa disputa vencida com facilidade por Álvaro Uribe. Alguns avaliam que suas políticas de difícil classificação no esquema clássico direita/esquerda acabaram por confundir os eleitores.

    Havia diversas colombianas presentes ao debate e muitas eram opositoras de Mockus e eleitoras do atual prefeito de Bogotá, Lucho Garzón, do Pólo Democrático, o novo partido de esquerda da Colômbia, que tem crescido rapidamente. Elas criticaram Mockus sobretudo por sua repressão aos camelôs e vendedores de rua, alegando que era preciso olhar o aspecto social do problema, já que muitos deles são migrantes rurais que foram para a cidade fugindo da guerrilha e dos paramilitares.

    Após o último mandato como prefeito, Mockus lecionou em Harvard e trabalha como consultor para o Banco Interamericano de Desenvolvimento e para diversos governos e instituições. Ele toca projetos no Brasil em parceria com as administrações de São Paulo e Belo Horizonte. Também lidera um pequeno partido, o movimento
    Visionários pela Colômbia.



    Escrito por Perrusi Filho às 19h27
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    A VIDA SEGUE...

    Pesquei no blog de Pedro Dória. Vídeo tocante. A vida é uma merda mesmo. Espero que o Destino poupe a menininha...  Lá vai:



    Escrito por Perrusi Filho às 00h44
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    VIVA KERLON!

    Faço apologia do "drible da foca" de Kerlon. A atitude de Coelho é a imagem da degradação moral do jogador de futebol. A sua agressão não foi espontânea, fruto de um gesto impensado no calor do jogo; não, é produto de um concepção de futebol, de uma visão de esportividade. Coelho e quejandos (leiam as afirmações semelhantes de Luiz Alberto, do Fluminense -- aqui) preferem mais uma cusparada, uma cotovelada, uma porrada do que um drible humilhante ou uma jogada de efeito. No discurso e na prática, defendem, com ênfase, um tipo de honra. Qual? Uma baseada na violência.

    Especulo que, se não houvesse um árbitro numa partida, o jogo transformar-se-ia numa carnificina. Os jogadores dependem totalmente de um controle externo para manter a esportividade. Não acho isso óbvio. Caso seja, de fato, atrás da obviedade existe uma tragédia. Não há controle interno ou interiorização de uma deontologia do jogo na alma da maioria de nossos jogadores. O futebol brasileiro precisa de um processo civilizador.

    A ética de Coelho e quejandos assemelha-se, na forma, à honra militar, com seu éthos guerreiro, incompatível até mesmo com o mínimo deboche. Ora, a honra militar é resultado de circunstâncias bastante específicas. Sua "situação" não implica jogo ou comportamento lúdico, muito pelo contrário! E é lógico que seja assim ! O deslocamento da honra militar para outras esferas da vida não ocorre sem que não se pague um preço muito alto, inclusive a sua própria degradação enquanto código moral. A honra militar tenta controlar a violência explícita da função das armas; deslocada do ambiente da guerra e da caserna, a violência torna-se incontrolável e, também, o principal fundamento da ética.

    Vide os códigos "militares" das torcidas organizadas. É um ambiente no qual o lúdico mistura-se à violência de maneira que a brincadeira subordina-se a atitudes coercitivas. E os interditos são claros: brincar? Apenas com os pares, pois só existem inimigos do outro lado. Meu amigo Gil sempre defendeu que o bom do futebol é a gozação com o amigo do time adversário. Atualmente, não há mais amigos, e sim inimigos -- chega a ser intolerável, nessa situação, o uso de símbolos do outro clube: usar a camisa do inimigo é uma provocação, passível inclusive de morte.

    Faço uma homologia entre o discurso de Coelho e quejandos sobre a deontologia do jogo de futebol e o discurso das torcidas organizadas sobre a ética de torcer. No mínimo, são parecidos num fato: têm uma incapacidade visceral em perceber a beleza -- afora a falta completa de... humor!

    Houve um tempo no qual se ia ao estádio apreciar os dribles (ah, Fumanchu; ah, Joãozinho!), entendidos como a epifania da beleza no futebol. Ficava-se de pé, diante do drible espetacular, e tome aplauso. Não causa surpresa que Garrincha fosse a "alegria do povo". Houve um tempo no qual tocava-se e cantava-se frevo e samba nas arquibancadas; hoje, são palavras de ordem sem graça e com muito palavrão.

    Eu aplaudo de pé o drible de Kerlon.

    Pobre do futebol que não concebe mais um drible diferente e provocativo.

    Tempos difíceis. Momento de perigo, como dizia Benjamim. Cheiro de camisa parda.



    Escrito por Perrusi Filho às 17h54
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    Livros que NÃO mudaram minha vida

    EM TEMPO: Perrusi Pai envia seus livros que NÃO mudaram sua vida. Como é exagerado, colocou logo 10 -- tem mais tempo, mais leituras, etc. e tal, logo, tem direito. Curioso, não esperava Freud (hehe)...

    Perrusi Filho:

    O famoso blogueiro Catatau (leiam-no, pois seu blog é muito bom, e discute tudo, de parafuso de avião à biologia evolutiva -- AQUI) fez a seguinte pergunta ao Blog dos Perrusi: quais os cinco livros que NÃO mudaram as suas vidas? A pergunta faz parte de uma corrente de blogues. Ao respondê-la, indicamos mais cinco blogueiros para resolver esse desafio. E, de fato, é um desafio, pois, se no início achei fácil a questão, depois embananei-me todo. Ainda aguardo a resposta de Perrusi Pai, já que o blog é familiar; mesmo assim, responderei agora à pergunta. É que fiquei encafifado. E quero respondê-la logo.

    Bem, mudar a vida é um negócio sério. Pessoalmente, eu nunca mudei a minha vida -- foi ela que mudou (brincadeirinha! Eu sou o sujeito de minha história. Ou será estória? Deixa pra lá). Mudar a vida significa, na minha opinião, mudanças no sentimento, no pensamento e na conduta da pessoa, tudo junto ou separado, já que uma mudança no sentimento, por exemplo, pode trazer consequências ao pensamento e à conduta do indivíduo, ou não. Como a pergunta refere-se à vida, isto é, aos três momentos citados, responderei à pergunta dessa forma: tal livro NÃO mudou minha vida, ou seja, NÃO mudou meu sentimento, meu pensamento e minha conduta.

    Aqui, polemizo com o grande Catatau, quando escreve: "pensei em elencar alguns títulos que também não gostei, mas não gostar já significa que o livro nos "mudou". Além do mais, tanto "gostar" quanto "não gostar" não são critérios muito confiáveis para avaliar a qualidade de algo". Pensei bastante sobre essa afirmação e concluí que discordo. Acho que posso gostar de algo e, mesmo assim, esse fato não acarretar mudanças nos meus sentimentos ou nos meus pensamentos ou na minha conduta. Aliás, há muitas coisas na minha vida que gosto ou desgosto, mas que NÃO mudam a minha existência. De todo modo, um livro que não mudou nada, geralmente causou-me la belle indifférence -- nesse sentido, não discordo completamente de Catatau.

    Assim, bora lá (o que vem, nesse momento, à memória):

    - A Bíblia: pois é, o livro sagrado NÃO mexeu um tico na minha existência. Não que eu não tivesse, ainda muito pequeno, interesse religioso, mas foi fugaz feito a chama de um lampião diante do vento de Intermares. Quando a li, já era um ímpio, um incréu, sem alma, só tendo cérebro e psicomotricidade. Achei várias passagens muito bonitas, é certo, mas belezas... Bem, a beleza pode ser terrível ou anódina (a beleza de um casco de tartaruga de Intermares, por exemplo). E o sistema moral bíblico, antigo de quase 2000 anos (mais, se contarmos o Antigo Testamento), inventado por camponeses lutando e se matando por um deserto cheio de gafanhotos e cáctus, NÃO me disse nada, NÃO mudou minhas crenças. Em suma, já estava irremediavelmente incompleto quando li a Bíblia, como alertou Perrusi Pai, tendo pena de mim (velho cínico, pois ele sabe de que quem foi a culpa). O inferno aguarda-me com sofreguidão.

    - O Pequeno Príncipe: Orravan já afirmou que esse livro é o produto mais abominável da cultura ocidental. Posso até concordar, e li e não senti nada; na verdade, até desgostei. À vera mesmo: nem fedeu, nem cheirou.

    - As regras do método sociológico: reconheço a clareza de Durkheim, mas não tem jeito: NÃO mudou o meu pensamento. Muitas vezes, bocejei. Já "As formas elementares da vida religiosa", ah, esse sim é um baita livro.

    - Os Seminários de Lacan: nada. Fico até com consciência de culpa por causa disso, mas o termo é esse mesmo: nada. Mas a explicação é prosaica: eu NÃO entendi nada. Fui a rituais cabalísticos, com o objetivo de esclarecer minha cognição, e passei anos trancado numa sala hermética (climatizada), mas continuei sem entender nada. Não entendendo, fica difícil que Lacan tenha mudado minha vida.

    - O paradigma perdido: entendi tudo de Edgar Morin, mas... e daí? O termo é forte: indiferença.

    Bem, paro por aqui. No fundo, a lista tornou-se interminável. Tenho um cemitério de livros que NÃO mudaram a minha vida. Como combinado, relanço a pergunta aos seguintes blogueiros: Marconi, Dimas, Jônatas, Sancho e Samarone. Claro, não há garantia de respostas, a começar pelo selenita do Samarone (hehe...).

    Perrusi Pai:

    Difícil responder. Mais fácil seria o c