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PERSEGUIÇÃO e RESISTÊNCIA

Como é importante, publico o texto de Idelber (O Biscoito Fino e a Massa) sobre perseguição política a blogueiro. Tais situações repetem-se na atual conjuntura. Virou moda. E é preocupante. Percebe-se no horizonte uma tentativa de um certo establishment político em amordaçar a blogosfera política e independente.
Outro exemplo, daqui da terrinha: o clã Zé Neves (que todos os tricolores lembram com muito "carinho", pois elevou o Santinha à "glória esportiva") ameaçou o blog político Acerto de Contas (aqui e aqui).
Momento de perigo. Resistência e resistência. O que está em perigo é a dignidade de resistir.
(em tempo: Idelber confirmou, aos participantes do Clube de Leituras do Borges, o tema do papo de quarta-feira. É o conto "Emma Zunz" - disponível na internet em português e no original . Literatos, participem!)
Lá vai:
Mais um blogueiro ameaçado por político
Leonardo Sakamoto, jornalista, doutor em ciência política pela USP, coordenador da ONG Repórter Brasil e um dos maiores conhecedores da realidade do trabalho escravo no Brasil (e há tempos recomendado cá neste blogroll), foi ameaçado de processo na tribuna do Senado Federal no dia 25 de setembro. A senadora Kátia Abreu (PFL DEM-TO), conhecida líder da bancada “ruralista”, reagiu a uma simples informação – a de que ela votou de acordo com os interesses de latifundiários flagrados no uso de trabalho escravo – com uma ameaça de processo sobre o jornalista. O discurso da senadora, como costuma acontecer nesses casos, foi um arrazoado de incorreções:
Disse a digníssima na Tribuna do Senado: Sr. Leonardo Sakamoto, dono do site Repórter Brasil, financiado por recursos públicos, como consta no Contas Abertas, o senhor recebe dinheiro público para financiar o seu site e me acusa dizendo: A Senadora é uma das maiores opositoras do combate ao trabalho escravo contemporâneo. Quando Deputada Federal, defendeu os produtores rurais flagrados cometendo esse tipo de crime e atuou contra. Quero dizer-lhe, de público, que vou processá-lo por calúnia e difamação. O senhor é um irresponsável que mama nas tetas do Governo, que financia esse site irresponsável, o qual não tem crédito.
Na sua contudente resposta, Sakamoto refuta ponto por ponto:
1) Uma organização não-governamental, com diretoria e estatuto devidamente registrados, não tem dono e sim associados que elegem uma diretoria, da qual faço parte. Não sou proprietário de nada na Repórter Brasil.
2) A senadora cortou a frase que escrevi. A sua íntegra é a seguinte: "A senadora é uma das maiores opositoras do combate ao trabalho escravo contemporâneo. Quando deputada federal, defendeu os produtores rurais flagrados cometendo este tipo de crime e atuou contra a aprovação de leis que contribuiriam com a erradicação dessa prática". A matéria na íntegra pode ser lida clicando aqui.
Um exemplo: No dia 11 de agosto de 2004, 326 deputados federais aprovaram, em primeira votação, a proposta de emenda constitucional que prevê o confisco de terras em que trabalho escravo for encontrado, considerado uma das bandeiras da Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. A então deputada Kátia Abreu e mais nove parlamentares posicionaram-se contra. Depois disso, a PEC 438/2001 não foi colocada em votação em segundo turno devido à pressão realizada pela bancada ruralista da Câmara dos Deputados, o que tem beneficiado os fazendeiros que utilizam mão-de-obra escrava. De acordo com parlamentares e entidades que atuam no combate ao trabalho escravo, a senadora Kátia Abreu foi uma das mais atuantes para que isso acontecesse.
3) Ao contrário do que informou a senadora Kátia Abreu, eu não mamo "nas tetas do governo". Ou seja, eu não "colho benefícios financeiros ilícitos de empresa ou administração pública" (conforme o dicionário Houaiss). Essa sim é uma declaração passível de um processo por calúnia e difamação. Meu cargo na direção da Repórter Brasil não pode ser, nem é, remunerado, como manda o estatuto da entidade.
Como se lembram os que acompanharam este blog na época da campanha eleitoral, processos judiciais de senadores contra blogueiros já têm história e triste memória no Brasil. O Biscoito empresta sua solidariedade irrestrita a Sakamoto, deixa a sugestão para que os eleitores do Tocantins a escrevam à sua senadora com pedidos de esclarecimentos e convida os amigos blogueiros a repercutirem a notícia.
Minha aposta é que depois da resposta de Sakamoto e do desagravo do Senador Nery ao jornalista, a Senadora Abreu não volte mais ao assunto. Mas permaneçamos atentos ao desenrolar dos eventos. Em todo caso, minha convicção é que isso só vai deixar de acontecer quando os parlamentares e membros do Executivo perceberem que a força da internet já é tal que os custos políticos de ficar ameaçando blogueiro não serão altos demais para valer a pena. Com a palavra, a turma que é criativa com banners e que esteja disposta a compor uma caricatura da senadora pefelê, nos moldes do grande sucesso que foi o Xô, Sarney.
(notícia via Blue Bus via Querido Leitor)
Escrito por Perrusi Filho às 09h26
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LI "LOTERIA EM BABILÔNIA" E FUI PARAR EM OUTRO CANTO
Extemporâneo: incrível, nunca pensei que fosse dizer isso na minha vida: as meninas da seleção recuperaram minha fé no futebol! E que gol de gênio de Marta!
O famoso blog de Idelber, o "O Biscoito Fino e a Massa", abriu para a blogosfera um Clube de Leitura. A iniciativa foi muito boa e gerou uma série de discussões bem variadas, entre vários blogueiros, cada um apresentando sua interpretação do texto recomendado -- vale a pena ler as interpretações, algumas são bem interessantes (aqui, aqui, aqui e aqui). E, justamente, Idelber escolheu o texto a dedo, dado a capacidade desse conto de gerar associações: "Loteria em Babilônia" de Jorge Luis Borges. Para quem quiser ler o conto, aí vão a tradução em português e a versão original em espanhol.
Não participei da discussão. Li o conto, mas não fiz a crítica. Mesmo se tivesse tempo, teria uma imensa dificuldade, já que não tenho o costume de analisar produções literárias. Não é fácil. Quando leio ficção, tenho a tendência a fazer associações um tanto obscuras, muitas delas completamente fora do contexto. E a leitura do conto levou-me longe, bem longe, inclusive para fora da fronteira temática da discussão.
Bem, o conto fala de uma sociedade tomada completamente pelo jogo lotérico e dominada pela companhia responsável pela loteria. Tudo vira loteria e a companhia passa a controlar o arbitrário e a contingência da vida cotidiana. Vira uma sorte de Estado Ideal Totalitário ou de Deus -- pelo menos, muitas interpretações foram, com certa razão, nessa direção (o Hermenauta, por exemplo).
Embrenhei-me num caminho diferente e fiquei matutando sobre a loteria. Na verdade, fugi do conto. Fiz algumas associações e me lembrei de algumas análises de meu filósofo favorito, Daniel Dennett, sobre adivinhações. De uma certa forma, a loteria decide nosso destino; não precisamos tomar mais algumas decisões na vida, pois a loteria já "decidiu" por nós. Igualmente, a adivinhação serve para resolver diversos problemas, "tomando" uma decisão que seria, normalmente, de nossa estrita responsabilidade.
Dennett diz que é difícil tomar decisões na vida, e que uma das formas mais fáceis de decidir é apelar para a adivinhação. Pego o emprego ou não, peço o divórcio ou não, entrego meu coração ou não, faço isso ou faço aquilo. Sim, a decisão não é fácil e, até mesmo, envolve um "cálculo" mais ou menos complexo, com muitas variáveis, inclusive diversas do tipo não-racional. Qualquer coisa que alivie o fardo decisório é interessante. Há vários exemplares no mercado do aleatório: cara ou coroa, por exemplo.
Ah, esse procedimento gera uma certa paz espiritual, pois deslocamos, com isso, a nossa responsabilidade para algo exterior, independente de nossa vontade. Tentei implementá-lo no departamento de ciências sociais da UFPB, alegando que a Morte do Sujeito livrava-nos das tomadas de decisão; afinal, sem sujeito, não há escolha, logo, não há propriamente responsabilidade. Fiz ver aos meus pares que poderíamos deslocar nossa vontade para outras estruturas de escolha, principalmente as aleatórias, e que seríamos apenas vetores dessa estrutura, o que corroboraria algumas teorias estruturalistas e pós-estruturalistas, mas fui voto vencido, infelizmente.
No fundo, até concordo com a decisão dos meus colegas, pois "cara ou coroa" é muito simples e rudimentar. Para decisões difíceis, tipo "façamos mais uma greve e desmoralizemos de vez a universidade pública", esse artifício é insuficiente. Como diz Dennett, a escolha precisa de um bom motivo. E, depois do resultado do "cara ou coroa", tem-se que aceitar a decisão -- ou não?! Eis o problema. Por isso, precisamos de algo mais forte. Se possível, algum procedimento com grandes cerimoniais e que envolva entidades além de nossa compreensão. Se temos a necessidade de deslocarmos a responsabilidade das decisões para algum processo externo à nossa vontade, que seja um que tenha uma certa "intencionalidade", isto é, que assuma, justamente, alguma responsabilidade. A cerimônia é importante, pois solidifica o deslocamento da responsabilidade e "encarna" o procedimento randômico, valorizando-o simbolicamente. Com tudo isso, caso a decisão não dê certo, pelo menos temos um culpado ao alcance de nossas projeções. Outra vantagem: não precisamos compreender como funciona o processo. Aliás, o desconhecimento é vital e ajuda a fortalecer a legitimidade do deslocamento.
Cá entre nós, isso é muito reconfortante.
(como ateu, tenho uma incapacidade muito grande de deslocar minhas responsabilidades. Por isso, vivo culpado. O jeito é sempre acusar o capitalismo e a burguesia das decisões equivocadas que pululam nesse mundo velho e enfadado)
Pensando nisso, sugeri aos meus colegas (claro, não desisti de convencê-los da minha empreitada, pois a responsabilidade envelhece-me a cada dia) uma série de exteriorizações de responsabilidades. Uma antropóloga poderia jogar flechas ao léu (belomancia); um cientista político, bastões (rabdomancia); uma amiga minha, ossos ou cartas (sortilégios); um sociólogo poderia interpretar folhas de chá (tasseografia); eu mesmo poderia examinar algum fígado de animal (hepatoscopia), exceto o de pequenos cachorros (por causa de Ideafix), ou alguma outra víscera (haruspicia); tenho um amigo psicólogo e behaviorista que poderia facilmente interpretar o comportamento dos roedores (miomancia) e outro, dessa vez filósofo, o comportamento das nuvens (nefomancia)...
Bem... er... mais uma vez fui voto vencido.
Minha derrota, talvez, tenha uma explicação -- um tanto paradoxal, convenhamos: os cientistas sociais não gostam da sorte e do aleatório. Não suspeitam que alguns eventos podem ser aleatórios. Acham, com uma certa razão, que tudo tem significado -- boa parte da atração da psicanálise, por exemplo, é baseada nessa premissa. Antigamente, na Babilônia, tudo tinha sentido, porque o significado existia e vinha, necessariamente, do além-mundo; meus colegas acham que, agora, tudo tem sentido nesse mundo, porque tudo ao redor pulula de significado. O pensamento determinístico só mudou de mundo, mas não de procedimento.
Além disso, confundem acaso com contingência. Posso até admitir que a idéia de acaso, num sentido absoluto, é uma noção metafísica. Acho apenas que relativizar o acaso já é postular a contingência, que não é acaso. A contingência é o encontro casual de séries causais. E pensar que tudo tem sentido impede o raciocínio probabilístico e a apreensão dos processos contingentes.
Acho que meus colegas não compreendem que "a opção deliberada por uma opção sem sentido, apenas para se fazer uma escolha qualquer para poder seguir com a vida, provavelmente é uma sofisticação muito posterior, embora seja o motivo fundamental para explicar por que ela é mesmo útil às pessoas" (Dennett). Não, a gente tem que discutir, discutir, achar motivos, razões e sentidos em tudo e em todos. Ainda prefiro o "cara e coroa".
Enfim, li o conto de Borges, não entendi nada e findei brigando com meu departamento.
Depois da análise sociológica, o que mais detesto é a análise literária.
Escrito por Perrusi Filho às 16h11
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IRÃ GAY
 Proibida essa bandeira no Irã
Artigo interessante de Pedro Dória sobre a situação dos homossexuais no Irã. Informação curiosa: o governo Bush é homofóbico. Parece que Ahmadinejad e Bush têm medo de gays. É surpreendente?!
Lá vai:
Irã gay
Falando aos alunos da Universidade Columbia, em Nova York, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad declarou que, em seu país, não há gays. ‘Não imagino quem possa ter-lhes dito isto’, foi dizendo o bom presidente, ‘não temos deste fenômeno’.
Que há gays, no Irã, evidentemente os há. Em julho de 2005, dois adolescentes foram enforcados por terem transado – um tinha menos de 18 anos. ‘Todo jovem o faz’, um deles declarou. ‘Não sabíamos que havia pena de morte.’ No interior do país, as mulheres usam burqas. O único acesso que um adolescente tem ao sexo oposto são mãe e irmãs. Num cenário assim, não é de todo improvável que a exploração homossexual seja de fato comum na juventude. Na Arábia Saudita é considerado normal para um homem mais velho pegar um rapaz imberbe como amante.
Brian Whitaker, ex-editor de Oriente Médio do Guardian britânico e autor de Unspeakable love: gay and lesbian life in the Middle East – Amor não declarado, a vida de gays e lésbicas no Oriente Médio – escreve sobre o assunto, hoje. Ele lembra que a poesia persa já há muitos séculos se dedica também a temas homossexuais e que, como em todo país da região, pelo menos uma cidade tem fama de gay – o equivalente local a Campinas ou Pelotas. No caso do Irã, é Qazvin, onde há 600 anos viveu o poeta Ubayd Zakani, espécie de Bocage persa, conhecido pelas descrições satíricas e homoeróticas da sociedade.
A forca não é a única pena possível. A chibata é uma alternativa quando não há provas de que houve relação sexual. Há pelo menos uma entidade que luta pelos direitos gays no país – trata-se da Iranian Queer Organization, IRQO. Mas, evidentemente, quem vive no Irã tem medo de se organizar:
Os gays iranianos se dividem em dois grupos. Uns acreditam que organização e resistência ativa da comunidade GLBT provocaria uma forte reação governamental, que poderia atiçar uma contra-reação internacional contra o país. Ninguém quer mais uma desculpa para que venha uma reação militar internacional contra o regime iraniano por conta de violações de direitos humanos. Outros querem lutar por seus direitos civis plenos. […]
Nos últimos meses, ativistas de direitos femininos foram presas violentamente. A IRQO encoraja a comunidade gay e quem a apóia a iniciar petições que levem a apoio popular.
Os gays iranianos que temem se organizar porque isto provocaria uma reação do governo que poderia levar ao ataque do país é provavelmente infundada. A administração de Ahmadinejad e a de George W. Bush têm lá seus pontos comuns. Por exemplo, o de serem co-signatários de um pedido que nega à ONU o direito de financiar organizações que lutem pelos direitos de gays e lésbicas onde são oprimidos.
Exilado momentaneamente na Turquia, Amir, um jovem gay de 22 anos que busca asilo político fora do Oriente Médio, conta sua história de prisão após uma festa:
Os policiais nos vendaram os olhos, jogaram-nos numa van e nos levaram para o Ministério do Interior. Éramos todos conhecidos por nossos nomes. Fui o terceiro a ser interrogado. Os policiais tinham vídeos feitos da festa, em um dos quais eu lia um poema. Eles mandaram que eu o recitasse novamente. Que poema, perguntei. Aí me bateram no rosto, na cabeça. Tentei negar que era gay, então eles me tiraram os sapatos e começaram a bater com cabos de metal nas solas dos pés, provocando uma dor lancinante. Eu ainda estava vendado. Como encontraram consolos na casa da festa, me bateram com eles, enfiaram-nos na minha boca. Quando contei que meu pai era um mártir da Guerra Irã-Iraque, eles bateram ainda mais duro. Tiraram de mim o cartão que me garantia benefícios para filhos de mártires e disseram que informariam à universidade onde estudo de minhas atividades.
O computador do rapaz foi confiscado e as imagens de homens nus que ele tinha foram apresentadas a sua mãe. Durante o julgamento, ameaçaram-no de leva-lo a um médico. É o maior terror para um rapaz gay. Se o médico der um atestado garantindo que alguém já foi penetrado, vem a condenação à morte. Liberado após tortura e multa, Amir conseguiu fugir.
Os alunos de Colúmbia riram quando Ahmadinejad explicou ‘que este fenômeno’ não existia no Irã. Evidentemente, a declaração é tão absurda que faz dele um líder caricaturalmente fanático. Mas, para os homossexuais iranianos, não há graça nenhuma.
Escrito por Perrusi Filho às 17h44
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AINDA SE FAZ OMELETE QUEBRANDO OVOS
 Alon?!
Stalinista...
Pra que livros, conhecimentos, fatos, pra quê?! Incrível como uma determinada posição política, com "um ponto de vista democrático, nacional e de esquerda", pode ser tão hipócrita. A nova defesa de Stalin realizada pelo Blog do Alon (aqui e aqui) foi a gota d'água. Revelou de vez sua hipocrisia.
Alon critica uma citação dum livro didático de história, escrito por Mario Schmidt, e aproveita para fazer loas a Stalin. Tal livro, inclusive, causou o maior escarcéu na blogosfera (aqui, aqui, aqui e aqui). A citação é a seguinte:
"A URSS era uma ditadura. O Partido Comunista tomava todas as decisões importantes. As eleições eram apenas uma encenação (...). Quem criticasse o governo ia para a prisão. (...) Em vez da eficácia econômica havia mesmo era uma administração confusa e lenta. (...) Milhares e milhares de indivíduos foram enviados a campos de trabalho forçado na Sibéria, os terríveis Gulags. Muita gente foi torturada até a morte pelos guardas stalinistas...'' (pp. 63-65).
Tal afirmação -- aliás, absolutamente banal do ponto de vista historiográfico -- é vista como anticomunismo. É uma estratégia, na verdade. Sim, isso mesmo, foi a forma utilizada pelo autor para agradar os reaças, isto é, "o autor resolveu recorrer ao anticomunismo para ser simpático à direita", diz Alon. Afinal, "eu não levo a sério, ideológica ou intelectualmente, pessoas supostamente de esquerda que pedem salvo-conduto à direita para contrabandear opiniões também supostamente 'progressistas". Então, tá.
No artigo, Alon não contesta que a URSS foi uma ditadura. Simplesmente, omite olimpicamente esse fato -- afinal qual é sua importância? O que importa é escancarar o extraordinário erro da citação, isto é, a afirmação de que, na URSS stalinista, não houve "eficácia econômica" ou, ainda, ocorreu uma "administração confusa e lenta". O certo é afirmar que a indústria soviética, durante o stalinismo, cresceu 10% ao ano. Todo o argumento, até o fim do artigo, é para defender essa singela verdade. O fato de o crescimento stalinista ter-se baseado na superexploração do trabalho (mais-valia absoluta -- para usar um jargão -- é eufemismo) e no trabalho forçado e escravo -- o preço foi óbvio: matança e assassinato de milhões de pessoas -- é visto com desdém. No fundo, a denúncia desse fato é desvio trotskista -- cruzes, mais uma picareta de gelo na cabeça do pobre Trotski!
Ora, "certos ramos do esquerdismo aliam-se à direita para difundir que nos anos 30 a União Soviética tinha diante de si todas as opções e que escolheu a mais "sangrenta" porque os bolcheviques e Stálin eram 'maus". Aqui, Alon chega ao cúmulo da hipocrisia ao colocar aspas na palavra-chave para entender o desenvolvimento soviético: "sangrenta". Por que as aspas? Ele não diz e prefere continuar com a cantilena produtivista. Aliás, insinua sim o motivo: sem aspas, a utilização do termo "sangrenta" seria uma acusação humanista ao comunismo. E o humanismo... Ora, sabemos o que o stalinismo pensou e pensa do humanismo: uma ingenuidade que nega a administração das coisas, pelas coisas e para as coisas. Não importa muito a morte de milhões de pessoas. É o preço da História e do fordismo soviético.
Alon sabe, mas é hipócrita demais para assumir as consequências de sua posição: quem faz o jogo da direita não é ninguém, nem mesmo Trostki, e sim a sua defesa do stalinismo. E de três formas: primeiro, oferece de bandeja à direita a acusação de que toda esquerda é totalitária e antidemocrática -- Tio Rei e Olavo de Carvalho agradecem de coração o presente retórico; segundo, a crítica democrática do modelo liberal de democracia é abandonado e fica sem dono, e a defesa da democracia, agora entendida como democracia liberal e a única possível, vira monopólio da direita; terceiro, deixa uma certa direita à vontade para defender o "milagre econômico" da ditadura militar. Ora, se posso sustentar o crescimentos industrial soviético, relevando os milhões de mortos, posso muito bem defender, mutatis mutandis, o desenvolvimento econômico durante a ditadura militar, relevando a tortura e a falta de liberdade. Em nome do produtivismo e do crescimento econômico, despreza-se qualquer discussão política acerca da democracia e da liberdade.
(com a devida alteração de pormenores, não se defende Cuba sempre nos lembrando de seu excelente sistema de saúde?)
Compreendo melhor, agora, as posições políticas de Alon. É uma posição baseada na realpolitik, travestida de política realista; por isso, a impressão de bom senso. No fundo, tudo é correlação de forças e o maquiavelismo faz parte natural da política. Não surpreende sua admiração por José Dirceu e seu pedido de salvação do comissário petista pelo Estado de Direito (aqui): não há provas contra Dirceu, por isso deve ser anistiado. Ele poderia ser mais coerente e defender o seguinte raciocínio: mostrar a relação entre o crescimento econômico brasileiro a 4,5% ao ano e -- logo, por força do argumento -- a inocência de Dirceu. Afinal, como podemos culpar os governistas de corrupção, etc e tal, se desenvolvemos, atualmente, as forças produtivas brasileiras? Não há corrupção, nem crime, diante desse tipo de História.
Enfim, Alon aproveita a deixa (bem PC do B isso) e acusa o PT de anticomunista -- "no futuro, as diatribes anticomunistas do PT serão esquecidas", diz ele. Mas isso é um dos poucos legados do PT que não pode ser esquecido: uma crítica democrática e de esquerda do totalitarismo -- única forma de construir uma esquerda pós-totalitária. Ora, isso é impossível defendendo Stalin, Mao, Deng Xiaoping, Fidel Castro e quejandos. Isso é defender dominação pura e simples, e não luta hegemônica; pensar como Lênin, pensando que é um... democrata; instrumentalizar a democracia e não pensá-la como valor.
Considero a defesa de Stalin comparável ao revisionismo histórico que nega o Holocausto. É um sombrio erro moral e um monumental erro historiográfico. É a defesa política velada do totalitarismo.
É transformar o mote "um ponto de vista democrático, nacional e de esquerda" em "um ponto de vista stalinista e nacional para acabar com a esquerda".
Escrito por Perrusi Filho às 20h43
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MOMENTO POMPOM "COMEÇANDO A SEGUNDA-FEIRA"
Eu notei mesmo, pela primeira vez, Uma Thurman no filme Pulp Fiction. Paixão imediata. Ela como Mia Wallace , com aquele jeitinho manhoso, sonso e fatal, deixou-me com os pneus arriados. E sua dança com Vincent, vulgo John Travolta, ficou na antologia do cinema.
Personalidade forte. Tem jeito de dominadora. Dá medo. Mas submeto-me numa boa. Algumas submissões dão prazer. Nada contra.
Lá vai:





Escrito por Perrusi Filho às 19h47
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ARTIGO DE WANDERLEY GUILHERME DOS SANTOS
Texto do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. Polêmico, por isso vale a pena lê-lo. As metáforas e analogias são fáceis e óbvias, mas guardam seu efeito retórico. Há uma astúcia interessante no argumento: cria-se um novo ser e adversário, o tal do "brasilianismo", e, através da crítica dessa nova entidade, desmonta-se um discurso que, provavelmente, não existe (ou existe de outra forma bem mais complexa), exceto na cabeça do cientista político. Tudo bem, tal estratégia retórica faz parte do desejo de persuação do autor, e isso é muito comum nas discussões acadêmicas: inventa-se um adversário fictício para melhor desmontar o verdadeiro objetivo da crítica. O problema é que a análise fica um tanto vaga e generalizada, além de caricaturar o alvo da crítca. Enfim, não é tão eficaz. E o artigo tem algo que me incomoda -- confesso que é um tique pessoal: toda vez que um cientista social utiliza analogias e metáfores médicas e biológicas fico profundamente entediado, algumas vezes até assustado.
O artigo foi publicado originalmente no jornal Valor Econômico.
Lá vai:
Democracia e o vírus do brasilianismo
Dói na alma, mas nem sempre a educação é um bem sem contra-indicação. As pesquisas reiteram a cada rodada que as classes subalternas têm respondido com apoio e votos às políticas sociais do governo.
Onde o governo está mais presente é ali onde, proporcionalmente, tem crescido seu eleitorado. Desmentindo o argumento de que o governo falha em suas promessas de campanha. As oposições e os descontentes da esquerda também o acusam de trair sua base popular de origem.
Alternativamente, conservadores e progressistas descobrem motivo de congraçamento entre si na crítica ao suposto paternalismo governamental, que seria a razão da aquiescência das massas antes que da promoção de sua consciência cívica e autonomia política. Como é natural, não se há de responder com imperfeições terrenas às exigências do mundo platônico das idéias.
Equivalente ideal de pureza orienta os murmúrios de insatisfação quanto ao funcionamento das instituições legislativas, maculadas que estariam por operadores corruptos, por vícios simultâneos de origem e decrepitude, além de repetidas manifestações do insultuoso hábito de legislar em causa própria.
Do Executivo, o defeito mínimo que se lhe atribui é o da incompetência gerencial. Mencionam-se ademais, aqui e ali, alheamento, preguiça e incapacidade de decisão. Pela esquerda histórica, do mesmo modo insatisfeita, se assegura que o Executivo se encontra manietado por escandalosos acordos com o conservadorismo. Ou seja, o Executivo, a bem dizer, nada faz e, quando faz, faz mal ou em má companhia, descaracterizando o bem-feito.
E assim marcharia o país entre corrupção e inércia, de cambulhada com alguns outros países, poucos, igualmente cretinos, à margem do benéfico período de progresso material aproveitado pelo resto do mundo. Nem as migalhas, nós estaríamos saboreando desta vez.
Trata-se, é claro, de um diagnóstico brasilianista. Tão grave quanto o bócio e a elefantíase, o brasilianismo é a enfermidade típica do atraso, mas com patológica distribuição sociologicamente distinta.
Ela contamina preferencialmente pessoas de elevada classe de renda, habitantes de áreas urbanas, sobretudo no Sudeste do país, com diplomas universitários concentrados nas áreas de ciências sociais, economia e comunicação.
Em geral, o brasilianismo não provoca estados febris nem suores inoportunos, apresentando como principais sintomas uma enorme confusão de raciocínio, miopia conceitual e daltonismo partidário, estimulando surtos de verborragia, descontrole de adjetivos e relaxamento das vias gramaticais. Eventualmente, uma diarréia substantiva.
Dotados de imbatível lógica esquizofrênica, os contaminados costumam passar por professores, cheios de comendas, donos de escritórios de consultoria, fartos de encomendas, colunistas bem remunerados, intrigantes de notinhas jornalísticas e assessores de grupos de interesse.
Honestíssimos, em sua maioria, acreditam no que dizem, com grande pompa e muita circunstância. Causa dissabor vê-los. Ao contrário dos portadores de bócio e de elefantíase, cônscios estes da enfermidade que os atormenta, os brasilianistas desfilam orgulhosamente a própria miséria como portariam um estandarte de cruzados. Em certo sentido, são mesmo monocromáticos. Felizmente, o brasilianismo não é sexualmente transmissível. Segundo alguns clínicos, porque não é sexualmente ativo. Polêmicas médicas.
Embora bem-educados, os brasilianistas têm horror à leitura, particularmente de matérias sobre o Brasil, à exceção, obviamente, dos artigos que escrevem uns para os outros. Ignoram as estatísticas, têm vaga noção do que significa o coeficiente de Gini e não fazem a menor idéia do que foi a história da América do Sul nem do percurso secular do grande mito que são os Estados Unidos. Da Europa, conhecem os vinhos, os queijos e o carnaval de Veneza, em pacote turístico de sete dias. Constituem a mais acachapante evidência do fracasso da universidade brasileira.
Jamais um brasilianista aceitará a tese de que os pobres votam por uma razão idêntica à sua, isto é, por interesse. E, conseqüentemente, também rejeitarão a hipótese de que os carentes sejam tão racionais quanto eles, os poucos abundantes. Negarão que pertençam ao mesmo gênero de distribuição de privilégios os subsídios à exportação, a remuneração dos títulos da dívida pública e os empréstimos pré-consignados. São favoráveis ao controle da natalidade da população de salário mínimo e à pena de morte, em certos casos, que é uma forma substitutiva, ou complementar, de controle da mortalidade. Consideram-se liberais de boa cepa, pois têm entre seus melhores amigos, segundo testemunho voluntário, um negro, um judeu e um gay. A discriminação dos melhores amigos é a confissão inconsciente da lista de preconceitos que cultuam.
Não obstante os brasilianistas, ou melhor, inclusive com parcela do trabalho deles, vai se livrando das algemas do arcaísmo um país em que os conservadores parecem ter, finalmente, abandonado a estratégia de rondar os quartéis sempre que contrariados pela política. A integração material da sociedade avança pela via do mercado, a despeito dos revolucionários e dos adoradores dos monopólios, e no qual a Constituição de 1988 conseguiu evitar a institucionalização de práticas discriminatórias.
O custo de combater preconceitos e discriminações é baixo, no Brasil, porque não são protegidos por lei. Aspecto crucial, cuja relevância é perfeitamente reconhecida pelos negros da África do Sul e dos Estados Unidos e pelos antigos judeus imigrantes argentinos, por exemplo.
A sociedade precisa dos brasilianistas na exata medida em que as deficiências materiais são ainda tamanhas e a tentação para a autocomplacência é enorme. Mas estão sobre-representados na produção e controle da informação pública, comprometendo com sua vesguice melhor avaliação do que vai pelo mundo e pelo Brasil.
O formigamento social é extenso, a vida comunitária se enriquece municípios afora, mas de nada disso a maioria da população toma conhecimento, monopolizado que está o mecanismo de produzir idéias e imagens. Há evidente descompasso entre o processo de democratização em curso na vida política e social e o processo de concentração oligopolista no sistema de captação e difusão das novidades.
A unanimidade brasilianista que absorveu as fontes de informação prejudica a democracia, constitui ameaça aos direitos do cidadão de estar servido de fontes alternativas de opinião, nega, na prática, o pluralismo ideológico, enquanto busca a massificação bovina de leitores e telespectadores. Nunca o Brasil moderno, período ditatorial à parte, enfrentou inimigo tão poderoso: aquele que, tal como um partido subversivo, usufrui da liberdade para asfixiá-la.
O Brasil real é complexo, pleno de deficiências e de linhas de força, não está representado na rede para-ideológica de informação, tomada de assalto pelo brasilianismo.
O brasilianismo é a doença infantil da ditadura da opinião. De onde se segue a divergência entre o que ocorre no país e o que pensam sobre ele aqueles que se imaginam educados. Para estes, a educação não vale coisa alguma.
Escrito por Perrusi Filho às 18h29
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CONVERSA COM ANTANAS MOCKUS
Muito interessante o texto de Maurício Santoro, do blog Todos os Fogos o Fogo (belo nome!). Cientista político, é especialista em América Latina. Seu blog tem várias discussões importantes sobre nossa parte do mundo.
Abaixo, publico um texto que narra o resultado de uma conversa com Antanas Mockus, descrevendo as experiências produzidas na Colômbia, em particular em Bogotá, no combate à violência. Em suma, problema atualíssimo. É uma experiência alternativa às posições dominantes baseadas na ultrarepressão. E, também, não se baseia numa prevenção "técnica", que prescinde de qualquer visão cultural (antropológica) da violência, como muitos defendem na terrinha
Lá vai:

Uma das contradições mais fortes que experimento na América do Sul é o contraste entre a violência que atinge a Colômbia há 60 anos e o caráter absolutamente bem-humorado e afável dos colombianos que conheço, para não mencionar a alta qualificação técnica de seus acadêmicos e a beleza estonteante das mulheres. Na última sexta-feira, recebemos no instituto a visita do ex-prefeito de Bogotá, Antanas Mockus, um dos principais formuladores de políticas públicas de segurança naquele país. Foi uma excelente conversa que reforçou a alta consideração que tenho dos colombianos.
O nome de Mockus soa estranho aos ouvidos latinos, porque ele é filho de imigrantes lituanos. Formou-se em matemática e filosofia e antes de se dedicar à política foi reitor da Universidade Nacional e se destacou em seus dois mandatos em Bogotá (1995-1997 e 2001-2003) como um inovador excêntrico e controverso, que mudou a maneira de se pensar segurança na Colômbia. O cerne da polêmica foram as ações de seu programa de “cultura cidadã”. A idéia principal é que a violência tem um forte componente cultural e que para combatê-la é necessário não somente melhorar a polícia, mas atuar nas relações cotidianas das pessoas.
Mockus fala na necessidade de romper o “divórcio entre lei, moral e cultura”, isto é, a percepção de determinadas transgressões são aceitáveis para a sociedade. Por conta disso, seu governo investiu na criação de instituições de resoluções pacíficas dos conflitos. Por exemplo, realizando “campanhas de vacinação contra a violência”, na qual as pessoas expressavam publicamente seus ódios mais intensos. Ou distribuindo cartões com polegares para cima e para baixo, que eram entregues aos motoristas e usados para manifestar descontentamento em incidentes de trânsito. Outra medida foi contratar mímicos para ridicularizar pessoas que violavam as leis de tráfego.

O prefeito também tomou medidas bastante controversas, como a chamada Lei Cenoura, um toque de recolher em bares e restaurantes. Decretou noites exclusivas para as mulheres da cidade, deixando os homens em casa. Casou-se num circo e fantasiou-se de super-herói para divulgar suas idéias. É incrivelmente engraçado e com uma retórica muito habilidosa para defender seus projetos.
Os êxitos de Mockus foram notáveis: reduziu a taxa de homicídios em Bogotá de 82 para 35 por cem mil habitantes e em grande medida foi o responsável pela cidade ser considerada hoje como “uma ilha de legitimidade dentro da Colômbia”, na expressão de um amigo daquele país. Concorreu à presidência em 2006, mas teve votação pífia, ficando em quarto lugar numa disputa vencida com facilidade por Álvaro Uribe. Alguns avaliam que suas políticas de difícil classificação no esquema clássico direita/esquerda acabaram por confundir os eleitores.
Havia diversas colombianas presentes ao debate e muitas eram opositoras de Mockus e eleitoras do atual prefeito de Bogotá, Lucho Garzón, do Pólo Democrático, o novo partido de esquerda da Colômbia, que tem crescido rapidamente. Elas criticaram Mockus sobretudo por sua repressão aos camelôs e vendedores de rua, alegando que era preciso olhar o aspecto social do problema, já que muitos deles são migrantes rurais que foram para a cidade fugindo da guerrilha e dos paramilitares.
Após o último mandato como prefeito, Mockus lecionou em Harvard e trabalha como consultor para o Banco Interamericano de Desenvolvimento e para diversos governos e instituições. Ele toca projetos no Brasil em parceria com as administrações de São Paulo e Belo Horizonte. Também lidera um pequeno partido, o movimento Visionários pela Colômbia.
Escrito por Perrusi Filho às 19h27
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A VIDA SEGUE...
Pesquei no blog de Pedro Dória. Vídeo tocante. A vida é uma merda mesmo. Espero que o Destino poupe a menininha... Lá vai:
Escrito por Perrusi Filho às 00h44
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VIVA KERLON!
Faço apologia do "drible da foca" de Kerlon. A atitude de Coelho é a imagem da degradação moral do jogador de futebol. A sua agressão não foi espontânea, fruto de um gesto impensado no calor do jogo; não, é produto de um concepção de futebol, de uma visão de esportividade. Coelho e quejandos (leiam as afirmações semelhantes de Luiz Alberto, do Fluminense -- aqui) preferem mais uma cusparada, uma cotovelada, uma porrada do que um drible humilhante ou uma jogada de efeito. No discurso e na prática, defendem, com ênfase, um tipo de honra. Qual? Uma baseada na violência.
Especulo que, se não houvesse um árbitro numa partida, o jogo transformar-se-ia numa carnificina. Os jogadores dependem totalmente de um controle externo para manter a esportividade. Não acho isso óbvio. Caso seja, de fato, atrás da obviedade existe uma tragédia. Não há controle interno ou interiorização de uma deontologia do jogo na alma da maioria de nossos jogadores. O futebol brasileiro precisa de um processo civilizador.
A ética de Coelho e quejandos assemelha-se, na forma, à honra militar, com seu éthos guerreiro, incompatível até mesmo com o mínimo deboche. Ora, a honra militar é resultado de circunstâncias bastante específicas. Sua "situação" não implica jogo ou comportamento lúdico, muito pelo contrário! E é lógico que seja assim ! O deslocamento da honra militar para outras esferas da vida não ocorre sem que não se pague um preço muito alto, inclusive a sua própria degradação enquanto código moral. A honra militar tenta controlar a violência explícita da função das armas; deslocada do ambiente da guerra e da caserna, a violência torna-se incontrolável e, também, o principal fundamento da ética.
Vide os códigos "militares" das torcidas organizadas. É um ambiente no qual o lúdico mistura-se à violência de maneira que a brincadeira subordina-se a atitudes coercitivas. E os interditos são claros: brincar? Apenas com os pares, pois só existem inimigos do outro lado. Meu amigo Gil sempre defendeu que o bom do futebol é a gozação com o amigo do time adversário. Atualmente, não há mais amigos, e sim inimigos -- chega a ser intolerável, nessa situação, o uso de símbolos do outro clube: usar a camisa do inimigo é uma provocação, passível inclusive de morte.
Faço uma homologia entre o discurso de Coelho e quejandos sobre a deontologia do jogo de futebol e o discurso das torcidas organizadas sobre a ética de torcer. No mínimo, são parecidos num fato: têm uma incapacidade visceral em perceber a beleza -- afora a falta completa de... humor!
Houve um tempo no qual se ia ao estádio apreciar os dribles (ah, Fumanchu; ah, Joãozinho!), entendidos como a epifania da beleza no futebol. Ficava-se de pé, diante do drible espetacular, e tome aplauso. Não causa surpresa que Garrincha fosse a "alegria do povo". Houve um tempo no qual tocava-se e cantava-se frevo e samba nas arquibancadas; hoje, são palavras de ordem sem graça e com muito palavrão.
Eu aplaudo de pé o drible de Kerlon.
Pobre do futebol que não concebe mais um drible diferente e provocativo.
Tempos difíceis. Momento de perigo, como dizia Benjamim. Cheiro de camisa parda.
Escrito por Perrusi Filho às 17h54
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Livros que NÃO mudaram minha vida

EM TEMPO: Perrusi Pai envia seus livros que NÃO mudaram sua vida. Como é exagerado, colocou logo 10 -- tem mais tempo, mais leituras, etc. e tal, logo, tem direito. Curioso, não esperava Freud (hehe)...
Perrusi Filho:
O famoso blogueiro Catatau (leiam-no, pois seu blog é muito bom, e discute tudo, de parafuso de avião à biologia evolutiva -- AQUI) fez a seguinte pergunta ao Blog dos Perrusi: quais os cinco livros que NÃO mudaram as suas vidas? A pergunta faz parte de uma corrente de blogues. Ao respondê-la, indicamos mais cinco blogueiros para resolver esse desafio. E, de fato, é um desafio, pois, se no início achei fácil a questão, depois embananei-me todo. Ainda aguardo a resposta de Perrusi Pai, já que o blog é familiar; mesmo assim, responderei agora à pergunta. É que fiquei encafifado. E quero respondê-la logo.
Bem, mudar a vida é um negócio sério. Pessoalmente, eu nunca mudei a minha vida -- foi ela que mudou (brincadeirinha! Eu sou o sujeito de minha história. Ou será estória? Deixa pra lá). Mudar a vida significa, na minha opinião, mudanças no sentimento, no pensamento e na conduta da pessoa, tudo junto ou separado, já que uma mudança no sentimento, por exemplo, pode trazer consequências ao pensamento e à conduta do indivíduo, ou não. Como a pergunta refere-se à vida, isto é, aos três momentos citados, responderei à pergunta dessa forma: tal livro NÃO mudou minha vida, ou seja, NÃO mudou meu sentimento, meu pensamento e minha conduta.
Aqui, polemizo com o grande Catatau, quando escreve: "pensei em elencar alguns títulos que também não gostei, mas não gostar já significa que o livro nos "mudou". Além do mais, tanto "gostar" quanto "não gostar" não são critérios muito confiáveis para avaliar a qualidade de algo". Pensei bastante sobre essa afirmação e concluí que discordo. Acho que posso gostar de algo e, mesmo assim, esse fato não acarretar mudanças nos meus sentimentos ou nos meus pensamentos ou na minha conduta. Aliás, há muitas coisas na minha vida que gosto ou desgosto, mas que NÃO mudam a minha existência. De todo modo, um livro que não mudou nada, geralmente causou-me la belle indifférence -- nesse sentido, não discordo completamente de Catatau.
Assim, bora lá (o que vem, nesse momento, à memória):
- A Bíblia: pois é, o livro sagrado NÃO mexeu um tico na minha existência. Não que eu não tivesse, ainda muito pequeno, interesse religioso, mas foi fugaz feito a chama de um lampião diante do vento de Intermares. Quando a li, já era um ímpio, um incréu, sem alma, só tendo cérebro e psicomotricidade. Achei várias passagens muito bonitas, é certo, mas belezas... Bem, a beleza pode ser terrível ou anódina (a beleza de um casco de tartaruga de Intermares, por exemplo). E o sistema moral bíblico, antigo de quase 2000 anos (mais, se contarmos o Antigo Testamento), inventado por camponeses lutando e se matando por um deserto cheio de gafanhotos e cáctus, NÃO me disse nada, NÃO mudou minhas crenças. Em suma, já estava irremediavelmente incompleto quando li a Bíblia, como alertou Perrusi Pai, tendo pena de mim (velho cínico, pois ele sabe de que quem foi a culpa). O inferno aguarda-me com sofreguidão.
- O Pequeno Príncipe: Orravan já afirmou que esse livro é o produto mais abominável da cultura ocidental. Posso até concordar, e li e não senti nada; na verdade, até desgostei. À vera mesmo: nem fedeu, nem cheirou.
- As regras do método sociológico: reconheço a clareza de Durkheim, mas não tem jeito: NÃO mudou o meu pensamento. Muitas vezes, bocejei. Já "As formas elementares da vida religiosa", ah, esse sim é um baita livro.
- Os Seminários de Lacan: nada. Fico até com consciência de culpa por causa disso, mas o termo é esse mesmo: nada. Mas a explicação é prosaica: eu NÃO entendi nada. Fui a rituais cabalísticos, com o objetivo de esclarecer minha cognição, e passei anos trancado numa sala hermética (climatizada), mas continuei sem entender nada. Não entendendo, fica difícil que Lacan tenha mudado minha vida.
- O paradigma perdido: entendi tudo de Edgar Morin, mas... e daí? O termo é forte: indiferença.
Bem, paro por aqui. No fundo, a lista tornou-se interminável. Tenho um cemitério de livros que NÃO mudaram a minha vida. Como combinado, relanço a pergunta aos seguintes blogueiros: Marconi, Dimas, Jônatas, Sancho e Samarone. Claro, não há garantia de respostas, a começar pelo selenita do Samarone (hehe...).
Perrusi Pai:
Difícil responder. Mais fácil seria o contrário. Os que não mudaram minha vida foram esquecidos. Alguns, nas estantes envelhecendo, outros que emprestei e não quis de volta. Mas, desafio é desafio.
1º) A Bíblia é um conjunto de escritos bem antigos, heterogêneos e desencontrados que exprimem o pensamento de povos do deserto. Reunidos, selecionados, editados e copiados milhões de vezes e distorcidos dos originais. Alguns livros da Bíblia me influenciaram, outros não. Entre os últimos, conto o Livro de Jó e sua proverbial e debilóide paciência.
2º) As obras completas de Freud. Sempre considerei Freud um psicopata sexual, reinventando e aproveitando idéias de outros autores, aplicando-as à sua própria mania. Apesar de tudo, um excelente escritor. Teria sido melhor se tivesse escrito romances.
3°) Oswald Spengler: “O Declínio do Ocidente”. O reacionarismo de Spengler sempre me enojou. Sua obra ficou famosa e era leitura obrigatória para os intelectuais, ou que se pensavam como tal, de minha geração.
4º) Arnold Toynbee : “A Study of history”. Obriguei, por assim dizer, meu pobre pai a comprar (à prestação, é claro) os dez volumes dessa obra gigantesca (o 11º vol. não passava de referências bibliográficas e de comentários). Obra narcisística e de grande influência nas Ciências Sociais no meu tempo de estudante e de historiador profissional. Sua teoria do “estímulo-resposta”, como fator primordial para o desenvolvimento das Civilizações, sempre me pareceu uma camisa de força para o pensamento nas Ciências Sociais, embora sua erudição sobre a Antiguidade Grega fosse inegável.
5°) Jamais consegui digerir autores como Lacan, Deleuze e Foucault. Todos me pareciam meros enganadores eruditos, embora formidáveis literatos, exceto Lacan que escrevia muito mal.
6º) Werner Keller: “E a Bíblia tinha razão...”. Livro de um jornalista alemão de um oportunismo sem par. Tornou-se um best seller internacional e milhões de pessoas acreditavam que tudo o que estava na Bíblia era verdade comprovada pela Arqueologia. Coitados!
7º) Viana Moog: “Bandeirantes e Pioneiros”. Obra inteiramente equivocada sobre a formação do Brasil e, no entanto, muito citada nos anos de 1960. Escritor de estilo convincente, embora de conteúdo patético ao comparar nossa formação histórica com a dos Estados Unidos.
8°) Adolf Hitler: “Minha Luta”. Obra terrível e venenosa além de mal escrita. Só de pensar nela ainda tenho arrepios. E, no entanto, muito cristã ao se basear na velha e mentirosa idéia de que os judeus “assassinaram o Filho de Deus”, isto é, Jesus Cristo. Por isso mesmo, para Hitler, os judeus, como “deicidas”, deveriam ser exterminados.
9º) Lewis Mumford: “A Condição Humana”. Extraordinário escritor reacionário que, num primeiro momento, fascina pelo seu brilhante estilo literário. Pouco a pouco, a gente vai descobrindo o fascismo em suas entrelinhas.
10°) Ortega y Gasset : “La Rebelión de las Masas”. Obra também obrigatória na minha juventude. Dele, ficou apenas a famosa e redundante frase “Yo soy yo y mi circunstancias”. Contudo, seu estilo poético transformava suas obras em leitura bastante agradável. Dele, porém, nada mais ficou!
Escrito por Perrusi Filho às 23h06
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DEPOIS DOS 50

Publico uma frase inquietante de Virginia Woolf, extraída de seu romance Mrs Dalloway, que causará rebuliços existenciais entre determinados leitores. Esse romance, talvez, seja a obra-prima de Woolf. Suas frases são musicais. Parecem que cantam. É uma espécie de, digamos assim, romance poético. Narra um dia de Mrs Dalloway, dama elegante de Londres, com suas impressões, que parecem aventuras emocionais, descrevendo suas reminiscências, seus conflitos, seu intimismo, as pessoas de sua vida. Woolf utiliza Dalloway para mostrar as dificuldades do contato afetivo com o outro, os obstáculos entre o passado e o presente, as barreiras entre a linguagem e o silêncio, entre o movimento e a fixidez.
A frase é um pensamento de Peter Walsh, um antigo apaixonado por Mrs Dalloway. Não é poética, nem musical; na verdade, é até cruel. Acho que ferirá suscetibilidades, por isso, para um Perrusi, é irresistível...
Lá vai:
"todos diriam a mesma coisa, se as pessoas fossem honestas: a partir de 50 anos, ninguém quer mais parceiros, ninguém quer continuar a dizer às mulheres que elas são bonitas. É o que diria a maior parte dos homens de 50 anos, se fossem honestos, pensava Peter Walsh".
Escrito por Perrusi Filho às 22h07
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MUSA DE DOMINGO
Sem tempo e, ainda mais, com o domingo no lombo, dá uma preguiça na alma que impede qualquer escrita. Mesmo assim, ofereço minha musa, diante da qual fico mais derretido do que Leite Moça: Scarlett Johansson!








Ai, ai, mais trezentos suspiros: como (posso) existir, se existe Scarlett Johansson?
Escrito por Perrusi Filho às 10h42
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ÁGUA OXIGENADA X ÁGUA SANITÁRIA
Pesquei esse resumo final do Caso Renan no blog do Hermenauta. É a transcrição da coluna de Maria Cristina Fernandes, do Valor.
Lá vai:
Murici é aqui. A cidade de 23 mil habitantes da zona da mata alagoana está onde sempre esteve. É o Senado que, ao mirá-la, enxerga a si mesmo.
A cassação do mais ilustre filho de Murici ofereceria uma oportunidade ímpar para os senadores se sucederem na tribuna em discursos saudando o alvorecer de uma nova ética na política.
Renan Calheiros esmerou-se no estilo que fez dele o homem mais poderoso de Alagoas. Com as referências pouco veladas a parentelas e penduricalhos escancarou os mais probos gabinetes do Senado Federal.

Adaptou para as circunstâncias um enredo que, em momentos críticos e fóruns restritos, incluía a consideração de que ele não se via como o único presidente de Poder da República a ter as contas de filho pagas por empreiteira.
Mas coube a um senador do Rio de Janeiro escancarar, com a elegância de um discurso calculadamente técnico, que a política vive de interesses, seja em Murici, na Avenida Paulista, em Ipanema ou no Senado Federal.
Francisco Dornelles limitou-se a questionar como ficaria a imagem do Senado se cassasse Renan por crime contra a ordem tributária que mais tarde o longo trâmite dos processos fiscais da Receita fosse incapaz de comprovar.
Estava ali, na fala sutil de um ex-secretário da Receita Federal, a senha de que a cassação poderia criar precedentes perigosos numa Casa em que a carreira pública e a evolução patrimonial avançam, muitas vezes, de mãos dadas e a passos largos.
Nada se disse sobre como os Calheiros elegem-se e continuarão a se eleger em Murici. Mas ficou claro ali que a representação parlamentar pode comportar tanto políticos que compram votos quanto aqueles que vendem seus mandatos a interesses não-declarados.
A convocação da ex-senadora do P-SOL era um sinal de que se pretendia fazer ali uma sessão de expurgo da contaminação do Senado pelos modos da política alagoana. Bem que ambos tentaram, disputando o detergente que deveriam usar na boca para dirigirem-se um ao outro. Mas o que se viu ali foi que a contaminação do Senado é auto-imune, doença provocada pela reação dos organismos aos seus próprios anticorpos.
Renan é o político alagoano com o maior número de prefeitos, deputados e presidentes de Câmaras de vereadores na mão. Mas, ao contrário do impeachment de Fernando Collor ou da morte de Teotonio Vilella, os destinos de Renan não pararam Maceió na quarta-feira. Mesmo não sendo nenhum símbolo do orgulho alagoano, não se prevêem no Estado dificuldades à sua reeleição.
Já Heloísa Helena, desde que deixou as hostes do PT governista, perdeu condições de disputar eleições majoritárias em Alagoas e deve transferir seu domicílio eleitoral para o Rio.
Na avaliação de um conterrâneo de ambos, demonstrou que seu partido transformou-se no Greenpeace da política nacional. E, nesse sentido, foi competente no espetáculo da quarta-feira. Tem hematomas à profusão para exibir em rede nacional.
Na queda do avião da TAM em julho, a comoção nacional em torno das 199 vítimas levou ao fracasso muitos prognósticos de colapso na popularidade presidencial. Viu-se ali que a grande maioria da população brasileira tem na tragédia uma companheira inseparável e, no bolso, a única válvula de escape.
A análise de que o Senado cometeu um suicídio político com a absolvição de Renan desconsidera o fato de que o Congresso já é a instituição pública mais desacreditada. No Brasil e alhures. A classe média, provavelmente, aumentará seu descrédito. Mas, para a grande maioria do eleitorado, a traficância de interesses do Legislativo já está embutida no preço.
Num polêmico livro sobre a cultura política nacional ("A cabeça do brasileiro"), Alberto Carlos Almeida traz pesquisas mostrando que a tolerância a práticas patrimonialistas é inversamente proporcional ao grau de educação da população.
O que muitos viram como um atestado de desonestidade aos mais incultos nada mais é do que a constatação de que a maioria da população aceita o patrimonialismo porque é isso que lhe oferece o Estado de que tanto depende.
Isso não se traduz em resignação. A cada quatro anos o eleitor brasileiro confere ao Congresso Nacional um dos mais altos graus de renovação parlamentar do mundo.
No dia em que Renan foi absolvido, o consumo familiar bateu o 15º mês consecutivo de alta. Almeida acha que o comportamento do eleitor nas eleições vindouras será explicada antes por esta curva de consumo do que pelos espetáculos públicos e privados do Congresso Nacional.
A tragédia para a oposição é que a exaltação ética, exaurida em si mesma, não contamina o voto. Os petistas hoje cantam vitória porque já não sabem mais onde começa e onde termina a probidade. Nem um nem outro têm em seu poder a agenda nacional. E talvez por isso maltratem tanto o interesse de seus eleitores.
Escrito por Perrusi Filho às 09h43
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RITOS FÚNEBRES

Afta voltou!!!
Entenderemos, agora, o motivo de sua ausência -- as razões nunca são habituais, e o texto está diferente. Ainda bem que retornou, pois me preocupava com Gil, depois de seu pedido desesperado de "volta Afta". Como todos sabemos, Gil é um cabra passional, e a paixão dói e leva a loucuras.
Por isso, já sinto, nesse instante, tranquilidade nas hostes masculinas.
Por Afta Thunderbird,
Estive em um velório. Velório e enterro. Morreu o pai de uma grande amiga e fiquei com ela quase o tempo todo durante esses rituais.
Acho tudo muito macabro e até um pouco agressivo. Ao mesmo tempo, depois que passa fica a sensação de uma coisa necessária.
Tudo o que tem uma pulsão de morte como primordial me causa repulsa. Me parece anti-feminino na essência. Contra a natureza feminina. Talvez por isso os filmes e temas de morte, guerra, destruição façam tão pouco sucesso com o público feminino. Por outro lado, sinto-me profundamente atraída por tudo que tenha foco na pulsão criadora, seja ela traduzida na forma de sexo, paixão, amor, criação, construção, etc. Sei que resvalo num lugar-comum ao fazer essa aproximação da natureza feminina com a pulsão erótica e da natureza masculina com a pulsão de morte e de destruição. Aliás, um lugar-comum antigo pra chuchu. Mas não estou falando de homem e mulher e sim de natureza feminina e natureza masculina. Ou de sensibilidade feminina e sensibilidade masculina. Todo mundo tem esses dois lados em combinações e dosagens as mais variadas. Muitos homens esforçam-se a vida inteira para pisar e massacrar essa natureza feminina que lhe compõe o temperamento, o que é pior para eles e para quem tem que conviver com eles. O resultado acaba sendo um macho tosco, sem nuances nem mistérios. Gosto de homem que tem as duas coisas. Os tipos assim acabam sendo muito mais interessantes que a média. As mulheres também têm as duas coisas, variando muito de mulher para mulher. Uma mulher radicalmente feminina, quase sem nada de masculino, talvez até fosse tremendamente atraente, mas seria provavelmente insuportável.
Minha amiga precisava de mim e fiquei do lado dela. O momento é de fragilidade e o padre se aproveita da circunstância para falar um monte de coisas que a gente gostaria de acreditar. Contos de fadas para adultos que nossa imaginação, arrasada pela perda, daria tudo para aceitar.
Mas havia um corpo ali dentro, um corpo morto, inerte, agressivamente inerte. O que choca naquele corpo é a radical ausência de movimento. A gente olha um corpo humano e espera ver alguma vida lá dentro. Mas ali não. O mais feio da morte é essa ausência absoluta de movimento. Olhando bem, o corpo tem tanto a ver com a pessoa que morreu quanto suas roupas ou até a madeira do caixão. É feio, muito feio.
Essa materialidade do cadáver fica ainda mais impressionante na hora do enterro. Coveiros surgidos sabe-se lá de onde, pegam o caixão com uma falta de cerimônia e de delicadeza que lembra o pessoal da feira lidando com caixas de batata, jogando para lá, para cá e gritando de um modo que perturba quem está ali, em transe, imerso no rito fúnebre. A história ficou ainda pior, pois o pai da minha amiga era muito grande e o caixão também precisou ser grande. Na hora de descer ao túmulo, não coube. Aí os caras começaram a mexer para um lado, mexer para o outro e logo já não havia mais a mínima cerimônia. Na agitação, puseram o caixão praticamente em pé. E quando faziam isso, percebíamos claramente os movimentos do corpo deslizando lá dentro, o que era uma coisa horrível. Coveiros são uma gente que merecia um estudo (mais lugar-comum!). Por fim, conseguiram descer o caixão, mas de lado. Ele só conseguiu entrar de pé e ficar deitado, de lado, no fundo da cova. Aí passaram uma corda por baixo, levantaram para cá, levantaram para lá e nada. Foi quando uma das senhoras pôs-se a cantar hinos religiosos enquanto os coveiros lutavam com o caixão. E venceram. Não sei se por influência dos hinos, mas eles conseguiram deixar o caixão na posição correta no fundo da sepultura. Só não sabemos a posição em que ficou o corpo, lá dentro, mas acho que isso não vai fazer diferença para ninguém.
No fim, no momento derradeiro em que o corpo desce, há como que uma catarse generalizada dos parentes e amigos. Algo como uma intensificação da comoção, mas que é também uma despedida. A partir daquele momento, tudo mundo sabe que acabou. Morreu. Já foi e agora não tem volta. Ninguém vai ficar pensando, especulando sobre hipóteses dele não ter morrido, dele poder voltar. Não existe mais volta depois daquele instante.
Por isso pensei que por trás desse ritual macabro e muito feio, talvez exista um sentido mais profundo. Um sentido que vem da sabedoria da tradição. Como disse, hoje estou convencional e quase conservadora. Mais alguns parágrafos e ia me filiar aos “Democratas”.
Escrito por Perrusi Filho às 08h45
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MOMENTO POMPOM
Poema de Tamara Garant Spand, poetisa nova-iorquina. Muito nova, quase adolescente, teve um caso fulgurante com Keynes. Há boatos que influenciou o grande economista a escrever a Teoria Geral. Cansada da ambiguidade sexual de Keynes, abandonou-o sem consideração -- inclusive, detestava dar umas chicotadas no seu lombo antes do coito. Após o abandono, a saúde do economista piorou tanto que morreu, logo depois, em 1946.
Há indícios de que Tamara apaixonou-se por outra figura ambígua: Andy Warhol, o famoso pintor da arte pop. Mais uma vez, cansada de ambiguidade, largou Andy e estraçalhou sexualmente Charles Bukowski, que inclusive fez Mulheres em sua homenagem -- pelo menos, aqui, não pôde reclamar de ambiguidade.
_Com Charles, só queria trepar -- disse uma vez, já bem velhinha, numa entrevista à revista New Yorker.
"Ficou" com Bono, mas acho que isso é sacanagem.
O poema abaixo foi escrito logo após abandonar Keynes. Foi feito dentro dum caminhão, mais precisamente quando estacionado num posto de gasolina da rodovia 395, que corta o leste da Califórnia de norte a sul.

Noite Branca
à sombra daquele beijo a linha fina de um não a doçura daquele beijo na linha da minha mão a linha vermelha no copo oscila entre minhas mãos a idéia por um fio a noite outro desafio a linha fria do dia papéis espalhados no chão desejos aprisionados palavras sem solução a vida inteira contada nos rabiscos de um borrão
Escrito por Perrusi Filho às 00h29
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ESCALA EVOLUTIVA
Sempre pensei que a diferença entre liberais (no sentido estadunidense) e conservadores não era ideológica, e sim natural, isto é, para ser mais preciso, baseada na biologia evolutiva. A pesquisa abaixo (FSP) corrobora minha tese. Os conservadores são produtos atávicos da civilização humana. Caso o processo civilizador não existisse, a seleção natural eliminaria os coitados. Sobrevivem, assim, por causa das ações civilizadoras dos liberais.
A humanidade não trata seus doentes? Esse comportamento não ameniza os efeitos implacáveis da evolução? Ocorre o mesmo com o conservadorismo. Ao inventar a democracia, os liberais preservaram a sobrevivência dos conservadores. Embora a democracia condicione a evolução liberal, protege indiretamente os menos adaptáveis à civilização hodierna. Em qualquer despotismo liberal esclarecido, a seleção natural atuaria novamente, eliminando os reaças, incapazes de acompanhar as mudanças da vida moderna. Entendo agora por que a magnífica URSS proibiu a religião, uma tentativa revolucionária de abolir por decreto a existência conservadora. Pena que não deu certo. Por causa dos traidores, claro. Trotski, mais exatamente.
A pesquisa abaixo mostra o quanto o cérebro dos conservadores é frágil e deficiente. Diante de uma mudança absolutamente anódina, os reaças perdem a cabeça. Por exemplo: muda-se o caminho habitual de casa, pois houve uma reforma numa rua. O que acontece? O cérebro dos Reinaldos Azevedos reage mal às mudanças. Aparentemente, causa muita dor de cabeça. Já os liberais são serelepes e reagem tranquilamente às mudanças, pois está nos seus genes a composição molecular do progresso, uma mistura especial de Adenina com Timina -- na verdade, é a articulação espacial entre essas duas bases nitrogenadas que dá o tom ao progresso.
Em suma, segundo a ciência evolutiva, na distância que nos separa dos chimpanzés, existem os conservadores. Sei, sei, essa conclusão é cruel, mas a ciência é implacável e, ao contrário do que pensa a esquerda acadêmica, só diz a verdade.
(dizer que esse artigo, absolutamente científico, é idiota é uma idiotice).
Lá vai:
Liberais e conservadores têm cérebros diferentes
Pesquisadores norte-americanos sugerem que a decisão de mudar ou não um hábito depende do modo como os neurônios agem
DA REPORTAGEM LOCAL
O modo de agir de uma pessoa liberal e de alguém conservador não depende apenas das convicções em relação à vida. O comportamento diferente ocorre porque seus neurônios reagem de modo distinto diante de uma decisão difícil. Essa é a conclusão de um estudo publicado na revista "Nature Neuroscience". O trabalho, feito por pesquisadores da Universidade de Nova York, sugere que os liberais são mais propensos que os conservadores a reagir diante de pistas que sinalizam a necessidade de mudar uma reposta habitual. A análise dos cientistas levou em conta ações do dia-a-dia e não posturas políticas. A idéia era testar se as decisões mais maleáveis e tolerantes dos sujeitos que se autodeclaram liberais e os julgamentos mais persistentes dos ditos conservadores têm eco no cérebro. Segundo a equipe, liderada por David Amodio, do Centro de Ciência Neuronal da universidade, as diferenças na hora de tomar decisões estão relacionadas a um processo conhecido como monitoramento de conflito -um mecanismo que detecta quando uma resposta padrão não é apropriada para uma nova situação.
Caminho de casa Para descobrir como isso ocorre os pesquisadores trabalharam com um grupo de 43 voluntários que responderam a uma série de questões enquanto tinham seu cérebro monitorado por eletroencefalogramas. Uma das perguntas era sobre o caminho feito do trabalho para casa. "As pessoas costumam voltar pelo mesmo caminho, todos os dias, até que isso se torne um hábito e não seja preciso pensar muito sobre ele", explicou Amodio. "Mas, ocasionalmente, a rua está em obras, e temos que romper com uma resposta habitual para processarmos a nova informação." Com o eletroencefalograma, foi possível medir as diferenças neuronais da nova realidade. Nas pessoas classificadas como liberais, a atividade cerebral foi significativamente maior na área do cérebro conhecida como córtex cingulado anterior -que está ligado ao processo de auto-regulação do controle de conflitos- quando a situação hipotética pedia uma mudança na rotina. Os conservadores foram menos flexíveis e se negavam a mudar velhos hábitos. O controle de conflitos provavelmente tem origem na herança genética, mas as orientações liberais ou conservadoras são determinadas principalmente pelo ambiente que cerca o indivíduo, explica Amodio.
Escrito por Perrusi Filho às 09h19
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PENSAMENTOS (absolutamente) OBSCUROS
 Chove em Intermares e não é nenhum golpe de Estado!
Chove pra carai, aqui, em Cabedelo. Não sei mais o que fazer. É de lascar. É o dilúvio. O fim do mundo -- não deixa de ser irônico -- começa justamente em Intermares?!
Só me resta pensar. E penso de forma sombria, fria e chuvosa... Acho que estou com dor de cabeça, também.
Estia um pouco, mas nuvens negras aproximam-se rapidamente. Vejo lá embaixo, no gramado, várias vacas e bois pastando e cagando. Percebo que já existem alguns cogumelos nas bostas dos ruminantes. Cogumelos? Achei a cura para minha dor de cabeça! Produza uma vasodilatação cerebral e terá um efeito analgésico imediato. Claro, há alguns efeitos colaterais e... deixa pra lá! Boto a capa, pego o guarda-chuva, desço até o gramado, colho os cogumelos, subo, faço um chá, sento na varanda, olho a chuva, tomo a infusão e começo a pensar...
Baseando-me nalgum filósofo, cujo nome esqueci completamente, absolutamente, diria que, sem mais nem menos, aconteceu uma revolução a partir de 1870, na Europa e na Rússia, em que a linguagem separou-se de vez do referente. Seus protagonistas seriam, fundamentalmente, Mallarmé e Rimbaud: o primeiro defendeu uma “ausência real”, e fez desaparecer qualquer ligação entre a palavra e o mundo exterior, apenas existindo o mundo interior da linguagem; o segundo operou uma desconstrução da primeira pessoa do singular, explodindo o ego numa pluralidade sem limites: “je est un autre”.
Qual é o filósofo? Mais um golinho de chá...
Vale frisar que, mesmo o ceticismo antigo, tipo Hume e Montaigne, mantinha uma fidelidade à linguagem, escapando assim de um completo niilismo ontológico. Não há, aqui, uma dúvida autêntica que colocasse em xeque a utlização do aparato linguístico para colocar em evidência as incertezas, os limites, as ilusões; em suma, não se coloca em dúvida o comércio discursivo do homem com aquilo que ele considera como fatos. A linguagem, no caso, é usada ainda como um instrumento de verdade. Com o ceticismo moderno, a verdade da palavra é a ausência do mundo.
Recalquei o nome do filósofo. Efeito do chá? Mais um golinho...
Existe um mistério que seria o da recepção estética. De Platão a Freud, a especulação ocidental se baseou na intuição do re-conhecimento, do déjà-vu, do déjà-entendu. Uma sensação de novo re-encontro.
A arte é anterior ao mito? O mito não teria suas raízes e sua eficácia na gramática e na linguagem? Já a arte não teria suas raízes profundas no começo e nas origens do homem, num mundo ainda pré-gramatical, onde a música iniciava o processo de construção de uma identidade de si?
Enquanto o chá traz a analgesia, embora um dos seus efeitos colaterais seja o esquecimento, penso nas instigantes questões de Robin Lane Fox no seu livro "Bíblia - verdade e ficção":
"1) Qual seria exatamente a posição da primeira mulher como ajudante do homem: era ela uma igual ou uma subordinada, antes que os dois desobedecessem a Deus? 2) Como devemos imaginar as primeiras horas de nossos primeiros ancestrais? 3) Estavam nus, mas eram imortais, contanto que permanecessem inocentes: seriam talvez semelhantes a crianças, como hoje tendemos inicialmente a imaginá-los, até descobrirem os fatos da vida e serem lançados na vida adulta? Ou seriam mortais desde o início, e desde sempre sexualmente ativos em seu primeiro jardim das delícias, como tantos rabinos judeus e John Milton os apresentaram?"
Sem querer, olho o relógio e... eita!, estou atrasado, tenho aula! Aula de sociologia para a turma de Contabilidade. E corro direto até minhas obrigações profissionais. Será uma catarse!
Escrito por Perrusi Filho às 18h13
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FOTOS DA CHINA
Pesquei as indicações dessas fotos, logo aí abaixo no blog de Pedro Dória. São paisagens industriais chinesas captadas pelo fotógrafo canadense Carl Burtynsky.
Segundo Dória, pelas fotos, a industrialização chinesa parece "um pesadelo que reúne Henry Ford e Franz Kafka; a Inglaterra da Revolução industrial do século 19 e a China da Revolução Cultural do século 20; Blade Runner e Admirável Mundo Novo". Tudo junto e ao mesmo tempo.
Publico as fotos em homenagem aos meus amigos do PC do B. Houve um tempo no qual a admiração dos pecedobistas pela gloriosa China e sua Revolução Cultural era profunda. Um dia, renegaram-na, preferindo o vagalume dos povos, Enver Hoxha, da não menos gloriosa Albânia. Hoje, sinto neles uma volta, uma simpatia reencontrada pela China. Ah, como o passado esclarece o presente e o presente ilumina o passado.
Aí vão algumas fotos:








Escrito por Perrusi Filho às 18h13
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MÉXICO, MÚSICA, SEXO (LADY DY) E... SAUDADE.
Meu grande amigo Gil manda uma crônica breve, daquela feita no carro e no congestionamento. Crônica moderna, portanto. Fragrância paulistana, acrescentaria.
Lá vai:
 A Deusa, a musa de Gil (quem será?!) -- mas ele não estava pensando nela quando escreveu a crônica...
Começa a tocar no rádio do carro uma música com Lenine e uma mexicana de quem nunca tinha escutado falar. Estou voltando da chácara, descansado, pensando que o Corinthians, afinal, pode até empatar com o Santos, por quê não?
Uma frase da música chama minha atenção: “tenho medo das pessoas, tenho medo da solidão”.
Diferente de mim penso eu, que não tenho medo da solidão.
Mas esqueço em seguida por outra coisa mais interessante: a voz da moça. Ela tem que ser gostosa. A voz determina e denuncia.
Os homens com os quais converso concordam que é possível achar gostosa uma mulher que a gente apenas viu e nunca conversou.
O que nem todos sabem (ainda?) é que seja possível, e é, perceber como é gostosa uma mulher apenas pela voz. Aquela mexicana deve ter coxas deliciosas, como as da Salma Hayek!
O resto da viagem limita-se a um festival de imaginações, tratados masculinos, inferências e outros que tais da sublime imaginação masculina sobre vozes, imagens, coxas e ereções estranhas.
E sensações especiais que certas mulheres provocam e alguns descrentes, ou iletrados no assunto, não conseguem perceber.
Todos os homens acham a Dira Paes gostosa, claro. A bunda... Gente, o que é aquilo?
Mas é raro compartilhar com algum amigo aquele tesão peculiar que a Lady Dy provocava. Aquela cara de madre superiora, ual!
Por que essa divagação toda? Por causa de uma música e uma mexicana com voz de puro sexo? Não.
Na verdade, saudades da Afta.
Que nunca nem vi nem ouvi.
Será? Possa ser que o tesão nasça mesmo sem imagens ou sons, apenas pela leitura?
Volta!
Escrito por Perrusi Filho às 17h53
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VIOLÊNCIA: UMA INVENÇÃO BRASILEIRA
Publico um texto de Jorge Santana, cronista do blog cruzeirense Páginas Heróicas Digitais. Texto pesado. Algumas vezes, tenho a impressão de que a violência levará o Brasil a uma forma de fascismo nunca dantes navegado -- sem política, sem partido, apenas a violência pura, sem mediação alguma.
Lá vai:
Cadê o garoto?
Nos últimos cinco anos, vários torcedores do Cruzeiro e do Atlético-MG foram assassinados no Mineirão, no Independência, na estação do metrô de Venda Nova e, um deles, em seu local de trabalho, um bar da Av. Silviano Brandão. Tudo por conta da guerra surda e absurda de gangues infiltradas nas torcidas organizadas.
No domingo, 26 de agosto, contudo, a situação chegou ao paroxismo quando um garoto de 16 anos foi arrancado de um coletivo no Milionários (apesar do nome, um bairro proletário da região do Barreiro) mesmo contra a resistência de vários passageiros, para ser espancado na calçada apenas por vestir uma camisa do Cruzeiro. Um bandido em gozo de liberdade condicional liderava a gangue terrorista, segundo os jornais do dia seguinte.
Em Belo Horizonte, a guerra de torcidas está virando guerra de extermínio conduzida por sádicos contra cidadãos indefesos. Lembra o que se passou na Bosnia quando torcidas organizadas se transformaram em bandos de extermínio.
E o que aconteceu? Nada. Nenhuma autoridade se manifestou. A imprensa esqueceu-se rapidamente do caso. Ou será que o acobertou convenientemente? Os cartolas fingem que não era com eles. Os dirigentes de organizadas, como sempre, estão em silêncio, mesmo sabendo que os agressores vestiam uniforme de uma dessas torcidas.
Cadê o garoto? As últimas notícias davam conta de que ele estava internado no HPS com traumatismo craniano. Qual é o estado de saúde dele, dez dias depois da agressão? Como estão seus pais e parentes próximos? Cadê a imprensa de Belo Horizonte? O assunto vai cair definitivamente no esquecimento? Será que nem mesmo os cartolas do Cruzeiro vão prestar solidariedade à família?
Escrito por Perrusi Filho às 12h30
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PISCOPATAS CONTRA A VIOLÊNCIA
Pesquei no Hermenauta. É o trailer do filme Tropa de Elite -- li um livro, "Elite da Tropa", com a mesma temática (será a inspiração do filme?), misto de romance com antropologia da violência. Tanto o filme como o livro são barras-pesadas. Já tem o filme pirateado por aí. O assunto lembra-me as conversas que tive com dois alunos meus de pós-graduação, todos os dois da PM (um deles, alto oficial). Não brinque com os caras da TE, não. Pelo que deduzi, para lutar contra a violência no Rio, principalmente contra o narcotráfico, é absolutamente necessário psicopatas (?!).
A luta contra a violência tem um preço altíssimo, entre os policiais militares, principalmente psíquico. Mais ainda quando a estrutura de combate é extremamente militarizada e voltada à "guerra". Lembro de uma afirmação de um dos alunos, que dizia mais ou menos isso: "temos consciência do medo que a PM causa nos civis. Mas há muito medo na corporação; medo da gente; medo do que pode acontecer". Indaguei sobre os "civis". "Somos uma estrutura militar" -- foi, basicamente, a resposta. Significa que é impossível o mundo civil não ter medo de uma estrutura militar, ainda mais nas condições do Brasil? Perguntei sobre mudanças na PM. Sei agora que causa muitas controvérsias, inclusive nos policiais militares mais "progressistas", a posição de transformar a PM numa polícia civil e desmilitarizada.
Mas fiquei interessado no "medo". Entre outras interpretações, identifiquei o medo à desconfiança e, também, à paranóia. Pensei até no lado psiquiátrico: qual será a quantidade de surtos persecutórios na PM? Destoa da média geral na sociedade? Daria uma boa pesquisa. O poder, qualquer forma de poder, quando descamba para a desconfiança e a paranóia, invereda para várias formas de perversão -- é sinal de uma estrutura que está apodrecendo, já apodreceu. Talvez, esteja indo longe demais, mas me parece que a PM, atualmente, é uma estrutura "microfascista". A única coisa boa é que muitos, lá dentro, estão preocupados com a atual situação.
É possível pensar em "doença do poder"? Se Cannetti (Massa e o poder) tem razão em considerar o poder como o objeto máximo das pulsões, por que não imaginar que sua extrapolação dos controles institucionais e sublimatórios leva a surtos de perversão? Olhem os sistemas totalitários e as organizações ditas "totais" -- desconfiança, paranóia e perversão grassam nesses sistemas de interações sociais interpeladas cotidianamente por rituais, celebrações da ordem, investiduras simbólicas de poder. Tal inferência poderia explicar, pelo menos em parte, os surtos de pedofilia na Igreja Católica?
Bem... er... aí vai o vídeo:
Escrito por Perrusi Filho às 18h24
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MOMENTO POMPOM
 O amanhecer em Intermares, depois de comer dois ovos de tartaruga.
Setembro, poesia de Fernando Pessoa:
Segunda veladora -- Todo este país é muito triste. Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse...
Se alguma coisa foi por que é que não é? Ser não é ser? As flores do campo da minha infância, não as terei eternamente, Em outra maneira de ser? Perderei para sempre os afetos que tive, e até os afetos que pensei ter? Há alguém que tenha a chave da porta do ser, que não tem porta. E me possa abrir com razões a inteligência do mundo?
Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo
Escrito por Perrusi Filho às 11h15
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